Não gostas ou não queres?

Pintura a óleo - Kim Roberti

Pintura a óleo – Kim Roberti

Minha avó tinha um tio que era bispo – não sei se por parte de mãe ou de pai. Isso não importa muito, o que importa saber é que ele era visto pelas crianças, e até pelos adultos, não apenas como um tio, mas como  um homem importante – o Senhor Bispo, que  ao chegar, em qualquer lugar, deveriam todos lhe beijar a mão e se comportarem muito direitinho.

Quando na hora da refeição reclamávamos de algo que não gostávamos minha avó contava a seguinte história:

Ainda era ela uma menininha quando o tio-bispo foi passar o fim de semana na casa de seus pais. Como homem muito importante que era se fazia convidar: “dia tal vou almoçar em tua casa” ou “jantarei com vocês no próximo dia tal”. Isso era uma honra, mas ao mesmo tempo uma fonte de preocupações para os anfitriões.

Que iguarias deveriam ser servidas, que louças usar, era preciso verificar se a toalha estava devidamente bem passada e se os cristais estavam limpos e cintilantes.

O tio-bispo chegaria na sexta-feira quase na hora da jantar e a mãe de minha avó pediu à cozinheira que assasse umas bonitas postas de bacalhau regadas no melhor azeite.

Depois dos cumprimentos e salamaleques de praxe todos se sentaram à volta da mesa para jantar.

Minha avó e a irmã caladinhas comportavam-se como tinham sido ensinadas. Não deviam conversar uma com a outra e só poderiam dirigir a palavra a um adulto quando este lhes perguntasse alguma coisa.

O bacalhau foi servido, o convidado elogiou o sabor e tempero do mesmo, mas pelo canto do olho percebeu que minha avó, remexia o peixe de um lado para o outro do prato e não comia nada.

Inclinando-se em sua direção perguntou em voz baixa: “Não gostas ou não queres?”.

Assustada, ela olhou para irmã mais velha sem saber o que responder. Ambas sabiam que era feio dizer que não se gostava de uma comida (antigamente era assim), mas ela também sabia que era muito feio mentir, principalmente para o tio-bispo. Então num fiapo de voz falou: “Não tenho fome…

Então se não tens fome, não precisas ficar aqui. Podes ir deitar.” E foi isso o que ela fez satisfeita, achando-se muito esperta por ter conseguido com uma única resposta livrar-se de dois problemas: aquele jantar chato e não comer o bacalhau que detestava.

Na manhã seguinte acordou com muita fome. Qual não foi a sua surpresa quando lhe serviram no café da manhã o bacalhau da véspera. “São ordens do Senhor Bispo” – falou a cozinheira baixinho.

Minha avó levantou-se zangada e saiu correndo para o jardim sem ao menos beber um copo de leite.

Passou a manhã brincando com a irmã e depois de lavar as mãos, pentear os cabelos e cumprimentar os mais velhos sentou-se muito quieta no seu lugar para almoçar. Da cozinha vinha um cheiro delicioso de peru assado e sua boca encheu de água, estava com uma fome! Mas na sua frente mais uma vez colocaram o bacalhau da véspera. Os olhos de minha avó lacrimejaram.

Mais uma vez o tio-bispo perguntou: “Não gostas ou não queres?

Não quero.” – respondeu minha avó, com uma voz tão miúda que quem estava sentado longe não ouviu, e uma lágrima rolou em seu rosto.

Se não queres não precisas ficar conosco, podes ir para teu quarto.” E foi isso o que ela fez. Chorou a tarde toda, ninguém se atrevia a lhe levar uma fruta ou até mesmo um pedaço de pão, ninguém tinha coragem em desobedecer as ordens do Senhor Bispo.

Chegou a hora do jantar e mais uma vez colocaram à frente da minha avó o prato de bacalhau. Todos a olhavam em silêncio, a mãe sofria pela filha, o pai tinha o semblante fechado, mas minha avó pegou no garfo, ajeitou um pedaço de bacalhau, levou-o à boca e comeu com voracidade. Nem uma pessoa ao redor daquela mesa lhe dirigiu a palavra e a conversa sobre amenidades foi retomada.

Quando nos contava esta história minhas irmãs e eu gritávamos horrorizadas. Quanta maldade, que tio detestável!!  Mas com um sorriso dizia que foi assim que aprendeu a provar de tudo e a não deixar nada no prato. Se lhe ofereciam uma comida que não conhecia, servia-se de um pouquinho e se gostasse repetia.

Quando almoçávamos em sua casa sempre fazia as comidas que mais apreciávamos e nunca cansou de contar a história “Não gostas ou não queres?” sempre que pedíamos que o fizesse.

Azul sedução

Azul-é-a-cor-mais quente

Sempre foi assim. Primeiro leio o livro e só depois vejo o filme, mas desta vez foi diferente.

Após assistir Azul é a cor mais quente do cineasta tunisiano Abdellatif Kechiche e ganhador da Palma de Ouro do Festival de Cannes de 2013, procurei saber de onde viera a inspiração para esta provocante obra cinematográfica.

O diretor baseara-se na novela gráfica escrita por uma garota francesa Julie Maroh, que começou a fazê-la quando tinha 19 anos e a terminou cinco anos depois.

Este seu trabalho foi reconhecido e premiado no Festival International de la Bande Dessinée d’Angoulême, considerado o festival de histórias em quadrinhos mais importante de toda a Europa.

A história narra a paixão de uma adolescente por uma mulher alguns anos mais velha. Como todas as histórias de amor ela fala de descobertas e conflitos – o se conhecer, aceitar os próprios desejos e finalmente o se entregar. A versão literária é mais sombria e menos apelativa, em termos eróticos, que a do filme.  Inclusive a própria autora declarou que considerava as cenas de sexo ridículas e pornográficas e reclamou pelo fato das principais protagonistas serem heterossexuais na vida real.

Acredito que essa discussão é infrutífera. Se o filme oferece com maior entusiasmo a visão de duas mulheres se namorando, por sua vez, o livro mergulha com mais intensidade no emaranhado de angústias e delícias que envolve  assumir «o amor que não ousa dizer o nome». Tanto uma versão quanto a outra retratam uma história de amor de forma justa e sedutora e merecem ser conhecidas e admiradas.

“O amor se inflama, morre, se quebra, nos destroça, se reanima. O amor talvez não seja eterno, mas a nós ele torna eternos… Para além da nossa morte, o amor que nós despertamos continua a seguir o seu caminho.”

  • Azul é a cor mais quente

Julie Maroh

Editora Martins Fontes (selo Martins)

R$ 39,90

A Submissão*

A-submissão-Amy-WaldmanPrometera a mim mesma que desta vez seria diferente. Entraria na livraria apenas para comprar um presente de aniversário e sairia rapidamente. Não levaria nadinha para mim, nadinha mesmo! Mas… o que é mesmo que está escrito na faixa amarela que abraça aquele livro?

Uau! Vencedor de diversos prêmios, finalista de outros tantos, escolhido pelo New York Times como um dos livros mais notáveis de 2011, e eleito o melhor do ano por uma grande cadeia de livros americana.

Nas minhas mãos estava um livro que agradara não apenas a critica especializada, mas também o público leitor. Definitivamente tratava-se de um daqueles “tem que ler”. E foi assim, sem nenhum arrependimento, que quebrei a primeira promessa do ano e levei para casa A Submissão de Amy Waldman.

A trama do livro é instigante. Dois anos se passaram desde o ataque terrorista ao World Trade Center e para homenagear as 2.977 vítimas** será construído, no local do atentado, um memorial. Foram muitos os participantes, mas ao se abrir o envelope, que guarda o nome do escolhido, tem-se uma surpresa. O projeto vencedor é da autoria de um muçulmano.

Esse é o ponto inicial para o desdobramento de diversos questionamentos acalorados. Como poderão as famílias enlutadas aceitar um memorial projetado por alguém que associam aos algozes de seus parentes e amigos? Qual seria a verdadeira motivação desse arquiteto, não estaria ele sub-repticiamente homenageando os terroristas e considerando-os mártires?  Mas ele é americano e desde quando todo o muçulmano é um inimigo em potencial? Estar-se-ia insinuando que os muçulmanos americanos são cidadãos de segunda classe e perigosos? E se descartassem o projeto vencedor e escolhessem o segundo colocado? Não seria desleal e injusto não reconhecer a vitória só por causa de um nome?

A notícia ganha contornos incendiários quando é divulgada pela imprensa sensacionalista. Afinal, a qual verdade maior os nova-iorquinos irão se submeter? Aquela em que os direitos individuais são respeitados mesmo que incomodem a muitos, ou se deixarão dominar pelo medo, o preconceito e a histeria?

Pode-se ler A Submissão como mera ficção, mas e se algo parecido acontecesse de verdade, como reagiriam os americanos?  O fato curioso é que o livro chegou às livrarias dos EUA em 2011, em meio à grande polêmica sobre a construção de um Centro Comunitário Muçulmano a duas quadras do Ground Zero (Marco Zero). Esse centro seria não só um lugar onde se realizariam atividades esportivas e culturais, mas teria também uma mesquita. E esse era o problema.

Park 51Uma mesquita tão perto do lugar da tragédia? Não seria isso uma afronta às vítimas? Por que ali e não em outro lugar?

Inicialmente o centro deveria chamar-se Casa Cordoba em homenagem à cidade espanhola conquistada pelos mouros no séc VIII onde, por séculos, cristãos, judeus e muçulmanos conviveram pacificamente, mas foram tantas as criticas de que se pretendia, na verdade, construir uma mesquita para homenagear a vitória dos muçulmanos sobre o mundo ocidental e que ela seria um símbolo de domínio e conquista do Islã, que o espaço terminou por receber o nome anódino de Park 51.

Rudolph Gulliani era o prefeito da cidade de Nova Iorque quando os ataques aconteceram e considerou a construção do centro uma profanação, um desrespeito à memória das vítimas. Por sua vez Michael Bloomberg (prefeito de NY em 2011) e o presidente Obama declararam o lugar apropriado como forma de afirmar ao mundo que os EUA respeitavam todas as religiões e que não cabia ao Estado dizer como e onde seus cidadãos – fossem eles muçulmanos ou não – deveriam rezar.

Por fim, em setembro de 2011, o Centro Islâmico foi inaugurado com uma exposição fotográfica intitulada Crianças de Nova Iorque de Danny Goldfield, um judeu americano . No entanto, até hoje a mesquita não saiu do papel.

*A palavra Islã significa submissão. Para o Islamismo, conhecer e praticar no dia-a-dia as leis de Deus (caridade, fraternidade, tolerância, entre outras) é o verdadeiro caminho para alcançar a  Paz.

** Normalmente fala-se em 3000 vítimas, mas 27 mortos foram terroristas.

  • A Submissão

Amy Waldman

Editora Fundamento

R$ 38,50

Sete cantigas dentro de uma só

Cantiga-BlexbolexE minha encomenda chegou.

Cantiga de Blexbolex editado no Brasil pela Cosac Naify foi considerado pelo The New York Times como um dos dez livros ilustrados mais bonitos de 2013.

Enquanto a vendedora o manuseava pensei que ele não parecia nada com o que tinha imaginado que fosse. Supus um livro de tamanho mediano, capa mole, fininho e recebi um “tijolinho”, gordinho e de capa dura.

O texto vem com as letras que aprendi em criança ao ser alfabetizada. Uma caligrafia linda, redonda, quase que desenhada, e que informalmente apelidávamos “de mão dada”. Acredite, as letras se movimentam! Ora são comportadas, ora acompanham o movimento das ilustrações.

São sete histórias. Todas começam com o  mesmo desenho – uma escola, e todas terminam com a mesma casa. No entanto, elas são diferentes, e uma após a outra crescem em complexidade, complexidade esta que se desdobra em um texto mais elaborado e com novas ilustrações.

Imagine, aumente um pouquinho, acrescente outro personagem, outra aventura… e logo o autor convida o leitor a dizer, em voz alta, as palavras que não foram escritas.

Cantiga é um livro original, perfeito para quem ainda se encanta com o “objeto” livro, e as mil promessas que ele guarda dentro de si, apenas aguardando que alguém as aprecie e admire.

  • Cantiga 

Blexbolex

Editora Cosac Naify

R$ 39,90

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