O anjo e as mulheres de Bukavu

MwamaroyiRecentemente escrevi sobre Leymah Gbowee e a determinação das mulheres liberianas, que pacificamente conseguiram por um ponto final a uma guerra civil e destituir um governo tirânico.

Quando soube que a Opaq (Organização para a Proibição de Armas Químicas) havia recebido o prêmio Nobel da Paz 2013 procurei saber quais teriam sido os outros candidatos. Foi assim que conheci o trabalho maravilhoso do Dr. Denis Mukwege indicado anteriormente (2009) a esse mesmo prêmio, perdendo na época para Barack Obama.

Nascido na Republica Democrática do Congo (antigo Zaire) este médico ginecologista fundou e é o chefe cirurgião do Hospital Panzi localizado em Bukavu – cidade no leste do país, quase na fronteira com Ruanda. O país é marcado por constantes guerras civis e a região onde se localiza o hospital é considerada uma das mais atingidas pela violência sexual em todo o mundo.

As agressões perpetradas por milicianos rebeldes e soldados congolenses não só contra as mulheres, mas também contra homens e crianças são indescritíveis. Segundo o relato de uma das vítimas: O que fizeram comigo não tinha nada de desejo físico, (eles) queriam apenas destruir meu corpo e matar a minha alma.

Para milhares de mulheres o Hospital Panzi é a única salvação, o refúgio onde recuperam seus corpos mutilados, e recebem algum alento para recuperar as próprias vidas. Infelizmente a grande maioria dos homens, por vergonha ou medo de serem taxados de homossexuais não procuram ajuda.

Atualmente o trabalho do Dr. Denis Mukwege é referencia mundial, e quando não está atendendo vinte pacientes por dia corre o mundo fazendo palestras para denunciar essas atrocidades.

Em outubro do ano passado, um mês após proferir um discurso na sede das Nações Unidas – quando pediu a condenação não só dos grupos rebeldes, mas também dos governantes que fechavam os olhos a esses crimes – teve a casa invadida por homens armados que ameaçaram suas filhas e tentaram assassiná-lo. Ao perceber que os bandidos – apesar de terem sido pegos – não eram levados a julgamento, exilou-se com a família na Europa.

A ausência daquele que é conhecido como o Anjo de Bukavu foi bastante sentida e, assim como as mulheres da Libéria haviam feito anteriormente, as mulheres do Congo, mais precisamente as de Bukavu, organizaram-se para denunciar o ataque e protestar contra o descaso das autoridades.

Angariaram dinheiro suficiente para que Mukwege pudesse retornar, e oferecendo seus corpos seviciados como escudos, prometeram que, dali pra frente, seriam elas as responsáveis por sua segurança. Grupos de voluntárias foram formados, cada um com 20 mulheres e se revezaram 24 h para preservar a integridade física do médico. Sensibilizado pela coragem e apoio dessas mulheres,  o Dr. Denis Mukwege retornou em janeiro deste ano. O trajeto percorrido entre o aeroporto e o hospital foi acompanhado por uma multidão festiva.

O que me chamou atenção nos dois episódios, ocorridos em países marcados por conflitos e genocídios internos, foi o fato de que, mais uma vez, eram as vítimas que assumiam um papel decisivo no desenrolar dos acontecimentos. Agredidas sim, mas jamais derrotadas.  Apesar de tudo o que tinham sofrido não perdiam a esperança, nem a vontade de lutar por um mundo melhor.

Fico de pé, bato palmas e saúdo essas mulheres magníficas que são inspiração para todos nós!

2 Comentários (+adicionar seu?)

  1. rosana lins
    nov 05, 2013 @ 07:03:42

    Amiga
    Leio sempre seus comentários fascinantes!
    Falei com Juliana blog comer rezando sobre sua intenção de incrementar o blog fagulha de Idéias
    Ela disse para vc ligar para ela que terá o maior prazer de te dar as dicas
    Boa sorte e nao deixe de ligar
    Ro

    Enviado via iPhone

    Responder

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