Os meus sentimentos

Os-meus-sentimentosEm caso de morte liberte-se imediatamente de seus sentimentos”. Era isso o que a personagem principal  do romance Os meus sentimentos de Dulce Maria Cardoso deveria fazer, mas não faz. Está bêbada, completamente bêbada, acabou de sofrer um grave acidente de carro e encontra-se com a cabeça virada para baixo, presa pelo cinto de segurança. Será nessa posição desconfortável que relembrará a própria vida.

Assim como ela, nós os leitores, também acompanharemos seu relato virados pelo avesso e escutaremos os fatos serem narrados, de trás para frente, como se eles se esvaíssem em veios finíssimos de sangue, sem rumo definido, simplesmente escoando devagarinho e sempre.

“A memória é feita de morte, porque só nos recordamos do que já passou. A memória é feita de fragmentos. E a memória também é imaginação, nós recriamos o nosso passado, nada do que nos lembramos aconteceu exatamente assim.” 

Várias lembranças entram e saem de mansinho: os caminhoneiros, sem nome e rosto – com os quais saciou um desejo sexual lascivo e voraz; o pai amalucado que matava, com as próprias mãos, os passarinhos que criava em cativeiro; a filha tão amada, mas com quem sempre trocou farpas verbais e cruéis; o casal de burocratas que apesar de trabalhar lado a lado nunca percebeu a presença do outro, até o dia em que, sem querer, suas peles se roçaram pela primeira vez; o irmão bastardo, e tantas outras mais.

Ecos de vidas polifônicos compõem um romance diferente, estranho, perturbador, que enredam o leitor em um transe crescente.

Consagrada como uma das grandes escritoras do contemporâneo cenário literário português Os meus sentimentos de Dulce Maria Cardoso foi publicado em 2005, recebeu em Portugal o prêmio PEN de ficção e o Prêmio da União Europeia para a Literatura.

No Brasil já foram publicados outros dois romances seus, Campo de Sangue pela Companhia das Letras e O Retorno pela editora Tinta da China sobre o qual já comentei aqui no blog: https://fagulhadeideias.wordpress.com/2012/07/04/livro-o-retorno-dulce-maria-cardoso/

Apaixonei-me pela autora e gostaria muito que seus escritos recebessem uma maior atenção. Neles não há obviedades, as histórias merecem ser lidas não só pelos temas abordados, mas principalmente pela forma precisa e original como são narrados. Para mim, a leitura de seus romances é sempre uma grata revelação.

  • Os meus sentimentos

Dulce Maria Cardoso

Editora Tinta da China 

R$ 46,00

Quando a Garota de Ipanema encontrou Chica da Silva

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Como gostaria não apenas  “viajar” no texto de minha amiga Maria Sônia, mas também  participar do IV “Diamantina Gourmet” – Festival de Gastronomia e Cultura que acontece de 8 a 17 de novembro nessa cidade histórica de Minas Gerais! Lugar encantador, música maravilhosa, comida deliciosa, que mais pode desejar um mero mortal? Simplesmente jogar uma mochila nas costas e chegar logo a Diamantina.

    Na bossa das esquinas dobram os ingredientes e sinos. Na beira da praia a garota de Ipanema trança seu charme entre mares e aperitivos, peixes, pescadores, amores e alegria. No sopé da montanha, Chica da Silva envolve seus encantos nas mesas e camas que tão bem soube compartilhar – até conquistar o contratador João Fernandes para a celebridade e soberania. A Garota carioca e Chica a mineira sabiam do poder dos prazeres.

Na bossa da canção de nova interpretação do samba, reinando a suavidade, tom de pura sedução, a Bossa Nova deu voz aos entremeios e sussurros.

O Festival Diamantina Gourmet ao homenagear a Bossa Nova faz bom casamento de ingredientes e musicalidade conjugando à mesa  as raízes melódicas da harmonia. Este ano, 11 restaurantes se debruçam em cardápios criados especialmente para o evento e sopram a voz que a Garota e Chica antes protagonizaram, dando vez a inovação e talentos.

Os sabores das curvas das cidades de Diamantina e das ondas do mar da orla carioca se misturam em sabores. Frutos do cerrado, frango caipira, carne seca, frutos do mar, peixes e causos locais fazem a composição.

Chica e a Garota estão aí juntas, cada uma com seu particular e inviolável personagem, cada uma trazendo força e boas energias para mais uma edição deste charmoso Festival, nesta 4ª edição.

Carioca por opção absoluta e mineira por adoção, vislumbro que o Ora Pro Nóbis, as couves e outras tradicionais especiarias mineiras somadas à cerveja gelada – tão associada às praias – aqui juntadas à boas cachaças regionais, transformarão estes dias num verdadeiro lugar de boa comida e boa gente.

Coisa fácil não, Chica e Garota, vocês foram as maiores divulgadoras!

Maria Sonia Madureira de Pinho

(Arte Educadora, com especialização em Gestão de Patrimônio Cultural, carioca. Profunda admiradora das Minas Gerais)

O anjo e as mulheres de Bukavu

MwamaroyiRecentemente escrevi sobre Leymah Gbowee e a determinação das mulheres liberianas, que pacificamente conseguiram por um ponto final a uma guerra civil e destituir um governo tirânico.

Quando soube que a Opaq (Organização para a Proibição de Armas Químicas) havia recebido o prêmio Nobel da Paz 2013 procurei saber quais teriam sido os outros candidatos. Foi assim que conheci o trabalho maravilhoso do Dr. Denis Mukwege indicado anteriormente (2009) a esse mesmo prêmio, perdendo na época para Barack Obama.

Nascido na Republica Democrática do Congo (antigo Zaire) este médico ginecologista fundou e é o chefe cirurgião do Hospital Panzi localizado em Bukavu – cidade no leste do país, quase na fronteira com Ruanda. O país é marcado por constantes guerras civis e a região onde se localiza o hospital é considerada uma das mais atingidas pela violência sexual em todo o mundo.

As agressões perpetradas por milicianos rebeldes e soldados congolenses não só contra as mulheres, mas também contra homens e crianças são indescritíveis. Segundo o relato de uma das vítimas: O que fizeram comigo não tinha nada de desejo físico, (eles) queriam apenas destruir meu corpo e matar a minha alma.

Para milhares de mulheres o Hospital Panzi é a única salvação, o refúgio onde recuperam seus corpos mutilados, e recebem algum alento para recuperar as próprias vidas. Infelizmente a grande maioria dos homens, por vergonha ou medo de serem taxados de homossexuais não procuram ajuda.

Atualmente o trabalho do Dr. Denis Mukwege é referencia mundial, e quando não está atendendo vinte pacientes por dia corre o mundo fazendo palestras para denunciar essas atrocidades.

Em outubro do ano passado, um mês após proferir um discurso na sede das Nações Unidas – quando pediu a condenação não só dos grupos rebeldes, mas também dos governantes que fechavam os olhos a esses crimes – teve a casa invadida por homens armados que ameaçaram suas filhas e tentaram assassiná-lo. Ao perceber que os bandidos – apesar de terem sido pegos – não eram levados a julgamento, exilou-se com a família na Europa.

A ausência daquele que é conhecido como o Anjo de Bukavu foi bastante sentida e, assim como as mulheres da Libéria haviam feito anteriormente, as mulheres do Congo, mais precisamente as de Bukavu, organizaram-se para denunciar o ataque e protestar contra o descaso das autoridades.

Angariaram dinheiro suficiente para que Mukwege pudesse retornar, e oferecendo seus corpos seviciados como escudos, prometeram que, dali pra frente, seriam elas as responsáveis por sua segurança. Grupos de voluntárias foram formados, cada um com 20 mulheres e se revezaram 24 h para preservar a integridade física do médico. Sensibilizado pela coragem e apoio dessas mulheres,  o Dr. Denis Mukwege retornou em janeiro deste ano. O trajeto percorrido entre o aeroporto e o hospital foi acompanhado por uma multidão festiva.

O que me chamou atenção nos dois episódios, ocorridos em países marcados por conflitos e genocídios internos, foi o fato de que, mais uma vez, eram as vítimas que assumiam um papel decisivo no desenrolar dos acontecimentos. Agredidas sim, mas jamais derrotadas.  Apesar de tudo o que tinham sofrido não perdiam a esperança, nem a vontade de lutar por um mundo melhor.

Fico de pé, bato palmas e saúdo essas mulheres magníficas que são inspiração para todos nós!

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