O africano de todas as cores

O filme “Longa caminhada até a liberdade” do diretor inglês Justin Chadwick foi aclamado pela crítica, ao ser exibido em setembro no Festival Internacional de Toronto, e já é apontado como um possível candidato ao Oscar de 2014.

Baseado na autobiografia de Nelson Mandela  narra a luta contra o apartheid, e os vinte sete anos que passou na prisão até se tornar o primeiro presidente negro da África do Sul. É também a história de amor entre o ativista e a segunda mulher Winnie. Uma relação conturbada que perdurou por décadas até terminar com denúncias de traição por parte dela e de seu apoio à utilização de métodos bárbaros para obter confissões de opositores.

MandelaO livro “Longa caminhada até a liberdade” foi publicado ano passado no Brasil pela editora Nossa Cultura, e vem com prefácio escrito pelo ex-presidente Fernando Henrique Cardoso – colega da Mandela no grupo não governamental The Elders formado por ex-líderes mundiais que se reúnem para discutir e encontrar soluções para a paz mundial e defender os direitos dos mais desafortunados.

Para quem não se recorda, Nelson Madela recebeu juntamente com o ultimo presidente branco sul-africano Frederik Willem de Klerk o Prêmio Nobel da Paz de 1993, por trabalharem em conjunto na construção da NAÇÃO ARCO-ÍRIS onde brancos, negros, indianos, judeus e muçulmanos pudessem conviver pacificamente.

Seguindo as comemorações mundiais aos 95 anos de vida, do pacifista maior, acaba de chegar às prateleiras “Mandela – o africano de todas as cores” uma referência a essa nova nação.

Indicado para o público infanto-juvenil especialmente para aqueles com mais de 11 anos, o livro traz ilustrações de traços fortes, sendo estas bem coloridas ao retratarem os anos vividos em liberdade, e em poucas cores os muitos anos em que esteve preso. Os textos são curtos, mas oferecem uma boa explicação de como era viver sob um regime racista e segregacionista, e marcam cronologicamente o tempo em que Mandela viveu encarcerado. No final é oferecido um “para compreender melhor” às crianças que quiserem conhecer melhor as riquezas e problemas da África do Sul.

O-africano-de-todas-as-cores

Por último termina com o poema favorito de Nelson Mandela, Invictus escrito por William Ernest Henley:

(…) Prisioneiro dos fatos que me atormentam,

       Não gemi nem chorei

      Sob o infortúnio dos golpes,

      Estou acabado, mas de pé

(…) Pouco me importa a estreiteza dos caminhos,

      Os penosos castigos em minha senda,

      Sou senhor do meu destino.

      Sou capitão da minha alma

  • Longa caminhada até a liberdade

Nelson Mandela

Editora Nossa Cultura

R$ 79,00

  • Mandela – O africano de todas as cores

Alain Serres e Zaü

Editora Zahar

 R$ 39,90

 E-book: R$ 24,90

É giro ou é bacana?

Turma-da-Mônica-Uma-Viagem-a-PortugalPortugal e Brasil são países irmãos unidos pela mesma língua, certo? Diga isso a uma garota recém-chegada ao Brasil, matricule-a num novo colégio, bem no meio do ano letivo, e depois pergunte o que ela acha das similaridades entre o português falado e escrito lá e o daqui. Ela vai dizer que tem pesadelos tentando ser compreendida e que terá que reaprender a escrever porque a acentuação das palavras e a construção das frases são diferentes.

Pois essa garota fui eu, há muitos anos atrás, quando a minha família veio morar no Brasil. Falava muito rápido, “comia” as vogais e dizia coisas que minhas colegas de sala e professores não entendiam. Um verdadeiro martírio!

Por isso dei muita risada quando encontrei “Turma da Mônica – uma viagem a Portugal”. Como teria sido útil naquela época! Cada capítulo do livro começa com um texto escrito em “português de Portugal” e nas páginas seguintes os personagens de Maurício de Sousa fazem a “tradução”.

Hoje sou “nem carne, nem peixe”, transito entre os dois falares com desenvoltura. Apesar de já ter perdido quase todo o sotaque (afirmação polêmica, os brasileiros que me desculpem, mas português não tem sotaque os outros é que o têm) e tentar falar como uma local quando visito a minha terra natal, as pessoas de cada país percebem que sou de um outro lugar. No Brasil é o leve sotaque que não me abandona e em Portugal é o modo de falar que me trai, a famosa construção de frases e o emprego de palavras poucos usuais por aqueles lados.

O curioso é que mesmo depois de tantos anos ainda tenho dificuldade em pronunciar a palavra “moça” quando preferiria dizer “rapariga” (de significado pejorativo em algumas regiões do Brasil) e mantenho o costume de falar com as minhas irmãs dizendo “a menina vai… a menina quer….”, mesmo que não sejamos mais meninas há muito tempo, e inclusive uma de nós vai ser avó ano que vem.

Por último, se a Mônica fizesse o caminho inverso ao meu e fosse morar em Portugal, lá todos a chamariam de Mónica.

  • Turma da Mônica – Uma viagem a Portugal

José Santos e Mauricio de Sousa

Editora Leya

R$ 39,90

Guerreiras da Paz

Guerreiras da PazLi  “Guerreiras da Paz” de Leymah Gbowee de um folêgo só, e ao terminar pensei: Como é possível que esta mulher já tenha realizado tanta coisa antes mesmo de completar 40 anos? Que vida… Quantas lutas!

Em 2011, juntamente com Ellen Johnson Sirleaf e Tawakkul Karman, Leymah recebeu o prêmio Nobel da Paz por mobilizar as mulheres de seu país – Libéria – a lutarem, de forma pacífica, contra a guerra civil que se arrastou durante 14 anos.

Sua história de vida é impressionante. Tinha apenas 17 anos quando os conflitos começaram e, por causa deles, enterrou o sonho de um dia vir a ser pediatra.

Em um campo de refugiados em Gana, conheceu aquele que viria a ser o pai de seus filhos. O relacionamento não deu certo. Ele além de mulherengo era também violento, e Leihmah o abandonou mesmo estando grávida pela quarta vez.

Refugiou-se em casa dos pais. Tinha 26 anos e sentia-se um autêntico farrapo humano. Semanas, meses se arrastaram até que percebeu o quanto seu comportamento era nocivo para as crianças. Contando com o apoio da mãe decidiu voltar a estudar. O curso técnico de assistente social exigia experiência prática, e por essa razão aceitou trabalhar como voluntária no Projeto Cura do Trauma da Federação Luterana.

Mal sabia que estava dando o primeiro passo para se tornar uma Construtora da Paz.

Construir a paz é tratar das pessoas vitimadas pela guerra, fazer com que se fortaleçam outra vez e trazê-las de volta para o povo de onde saíram. É ajudar os algozes a recuperar sua humanidade de modo que possam voltar a ser membros produtivos de suas comunidades. Construir a paz é ensinar ao povo que se pode resolver um conflito sem pegar em armas. É restaurar sociedades em que as armas foram empunhadas  e torná-las não apenas integras, mas melhores”.

Mulheres-pacifistas-Libéria

Num país destroçado pela guerra civil as demandas eram incessantes, e Leymah nunca mais parou. Dividida entre trabalho, estudos, filhos e um novo companheiro, o tempo era pouco, muito pouco para tudo o que precisava ser realizado. Como uma bola de neve o número de reuniões, grupos de trabalho e responsabilidades aumentavam vertiginosamente.

O livro de memórias não narra apenas a trajetória exitosa do seu projeto de vida, mas as dificuldades pessoais por que passou.Difícil não poder se dedicar à educação dos filhos, não estar presente quando adoeceram ou receberam uma premiação na escola. Simplesmente Leymah não teve o direito de vê-los crescer.

Lidar com a inveja de algumas companheiras de grupo também não foi fácil, a ponto de se perguntar se não seria melhor largar tudo. Sua projeção como líder incomodava bastante e vários comentários mentirosos foram desferidos contra seu caráter e modo de agir.

Corajosa, não esconde as dificuldades que teve com a bebida, a maneira mais rápida que encontrou para relaxar e esvaziar a cabeça de todos os problemas que enfrentava diariamente.

Mas de onde vem a força desta mulher extraordinária? É ela mesmo que responde: de Deus. Uma noite sonhou com uma voz dizendo: “Reúna as mulheres para orar pela paz!”. Teria sido Ele o inspirador e o sustentáculo das mulheres liberianas cristãs e muçulmanas que, vestidas de branco, pacificamente se manifestaram até conseguirem derrubar o governo sanguinário e tirânico de Charles Taylor.

Em 2008, o filme Reze para que o diabo volte ao inferno foi visto pelos nova-iorquinos e recebeu o prêmio de melhor documentário no festival de Tribeca.

Anos mais tarde, discursando em Seatle, Leymah disse: “Nós (mulheres) somos os Mandela, somos os Ghandhi, somos os (Martin Luther) King!” E eu acrescento que sim, eles foram e são referências importantes, mas no momento o mundo precisa com urgência de mais mulheres como Leymah Gbowee.

  • Guerreiras da Paz

Leymah Gbowee

Editora Companhia das Letras

R$ 39,50

O homem que procurou o Barmanu

só-para-gigantes

E se o jornalista Gabi Martínez não tivesse entrado naquela cafeteria em Barcelona? Quem contaria a história daquele que, provavelmente, foi o último caçador do Yeti – o abominável Homem das Neves?

Lá dentro duas mulheres conversavam animadamente e se surpreenderam quando as cumprimentou. Uma era sua amiga, e a outra uma editora que conhecia apenas socialmente. Depois do susto explicaram que era dele que falavam, e pretendiam convidá-lo para escrever um livro verídico de viagens e aventuras .

Não foi difícil convencê-lo. Afinal tratava-se de uma daquelas histórias fascinantes que vêm envoltas em névoas e mistérios.

O personagem principal seria Jordi Magraner, um zoólogo, que sem contar com o apoio da comunidade científica à qual pertencia, sempre acreditou na existência de uma criatura selvagem, o Barmanu ou Yeti. Durante quinze anos desbravou as montanhas longínquas do Hindu Kush – espremidas entre o Afeganistão e o Paquistão – com o intuito de encontrá-lo.

Esse aventureiro fora também amigo e defensor do povo Kalash – uma tribo de origem indo-europeia e pele clara – para que não fosse subjugado, culturalmente, pela maioria esmagadora da vizinhança muçulmana.

Jordi possuía um caráter complexo; se por um lado o jeito desbravador e humanitário causava uma boa impressão, seu outro lado autoritário e irascível criou vários desafetos.

A vida particular também era motivo de muito falatório. As amizades que mantinha com meninos e adolescentes davam margem a comentários maldosos e ferinos.

Quando foi encontrado morto, os moradores da região não ficaram surpresos. Afinal tratava-se de um estrangeiro vivendo numa das regiões mais perigosas do mundo (o ataque às Torres Gêmeas em NY ocorrera há menos de um ano).

O crime nunca foi solucionado e, exceto por sua família, ninguém teve interesse em esclarecê-lo.

Ao escrever Só para Gigantes, Gabi Martinez não mediu esforços para narrar os últimos anos de vida de Jordi. Muitas viagens foram realizadas, longas conversas foram mantidas com familiares, amigos, colegas de trabalho, vizinhos, e até mesmo com seus inimigos. Todas essas investigações chegaram, inclusive, a colocar sua vida em risco.

O livro apresenta-nos um homem polêmico por vezes desagradável, mas mesmo assim merecedor de admiração e respeito. Como poucos teve a coragem de lutar por aquilo que acreditava e desconheceu o inimigo maior que tantos sonhos estraçalha: o Medo. Pode-se dizer que Jordi foi um gigante entre gigantes.

  • Só para Gigantes

Gabi Martínez

Editora Rocco

R$ 47,50

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