Na serra de Petrópolis

Para fugir do calor que faz em Salvador durante o inverno – uma marcação sem sentido no calendário – subimos a serra de Petrópolis e nos refugiamos na Pousada da Alcobaça  em Correias.

Pousada-AlcobaçaChegamos no meio de semana, e a pousada era todinha só para o casal. Durante dois dias fingi que era a nossa casa de campo.

Cruzar o portão verde da pousada é como entrar em outra dimensão de tempo e lugar. A construção de 1914 oferece confortos modernos e encantos de antigamente; os jardins presenteiam os hóspedes com uma infinidade de flores variadas e coloridas e extensos gramados muito bem cuidados; a cozinha, ah… A cozinha é um capítulo à parte! Comida extremamente saborosa que une na perfeição simplicidade e requinte. Sobremesas deliciosas, preparadas com muitas gemas, ajudaram a matar a saudade dos doces da minha terra natal.

Mas a pousada oferece um outro deleite que faz meus olhos brilharem de prazer. Opções de muita leitura!

Em cima da cômoda do quarto ou na mesinha lateral do sofá – posicionado em frente à lareira da sala – estão empilhadas revistas estrangeiras falando de decoração, viagens e culinária. Revistas atemporais que fizeram recordar meus tempos de criança, quando em uma loja de brinquedos ficava sem saber qual deles escolher. Assim estava eu, um tanto zonza, sem saber que revista folhear primeiro.

Subindo as escadas que levam à antessala comum aos quartos, estantes abarrotadas com os livros da proprietária Dª Laura Góes, e outros que foram deixados pelos hóspedes, agradecidos pelas horas tranquilas de leitura que desfrutaram ali.

Há de tudo um pouco; policiais, bons romances de autores nacionais e estrangeiros, guias de viagem, livros de receitas… e um muito especial: A cozinha da Alcobaça – receitas e histórias, escrito pela própria Dª Laura.

Cozinha-da-Alcobaça

E como se conversasse com um amigo, a autora conta como transformou a casa, que pertencia à família do marido, em pousada; o início da vida de recém-casada nos EUA, onde aprendeu a cozinhar; dos seus utensílios favoritos “adoro panelas velhas. Acho que deveria haver um antiquário só de tralhas de cozinha”; das “professoras” – vizinhas, cozinheiras, avós, tias, e os livros de receitas de família – que lhe ensinaram a cozinhar com amor; e outras casos vivenciados com os hóspedes da pousada.

Na segunda parte do livro apresenta as receitas da pousada e ensina como empregar as ervas aromáticas, verduras e legumes, tudo colhido na horta que de tão bonita e variada parece ser a continuação do jardim.

A cozinha da Alcobaça – receitas e histórias transporta o leitor para uma época da qual sente saudades, mesmo sem a ter vivido, e o inspira a recriar em casa uma culinária afetuosa repleta de cheiros, sabores e delicadezas.

Uma leitura que merece, não apenas, ser apreciada, mas consultada – toda a vez que se deseja aquela comida especial, que coloca um sorriso nos lábios de quem a desfruta.

  • A cozinha da Alcobaça – receitas e histórias

Laura Góes

Editora Terceiro Nome

R$ 62,00

A canção de Aquiles

Canção de AquilesAinda estamos no meio do ano, mas posso dizer com convicção que o meu livro favorito de 2013 é “A canção de Aquiles” de Madeline Miller.

Vencedor do prêmio Orange de Literatura 2012, este é o primeiro livro da autora que, até ficar famosa, ensinava latim, grego e Shakespeare, para alunos do ensino médio.

O romance histórico de Madeline Miller é baseado na Ilíada de Homero, e a autora demorou dez anos para terminá-lo. Coincidência ou não, foi mais ou menos esse tempo que durou a Guerra de Troia contada no poema épico.

A narrativa flui de forma eletrizante. Confesso que meus conhecimentos sobre a Antiguidade e Mitologia Grega eram e continuam sendo escassos, mas à medida que lia surpreendia-me com a variedade e a riqueza das histórias contadas, e que histórias!

O amor entre o invencível Aquiles e o seu melhor amigo de infância Pátroclo; um semideus que procura fugir ao seu destino e se esconde numa ilha vestido de mulher; uma virgem sacrificada para acalmar os deuses vingativos; um sacerdote que se humilha perante o rei para que a filha não seja oferecida como butim de guerra; a descrição do cerco interminável à cidade de Troia; um herói devastado pela morte violenta de seu amante; atos de crueldade, amizade e heroísmo… E muitas outras histórias mais.

Diversas vezes pesquisei na internet querendo confirmar se era tudo verdade, e sempre retornava à leitura mais animada, porque não só os fatos estavam corretos, como eram narrados de forma empolgante!

Espero sinceramente que a autora se anime com o sucesso de “A canção de Aquiles” e escreva logo a sua versão romanceada de “A Odisseia”, mas, por favor,  não faça os leitores esperarem outros dez anos!

  • A Canção de Aquiles

Madeline Miller

Editora Jangada

R$ 39,90

Estilhaços de uma guerra

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Aguardei com expectativa a publicação no Brasil de “O povo eterno não tem medo”. As criticas não poderiam ter sido mais elogiosas.

A autora israelense Shani Boianjiu, com apenas 24 anos, fora escolhida pela National Book Foundation* para fazer parte do seleto grupo dos cinco melhores escritores de ficção com menos de 35 anos de idade. A indicação feita em 2011, partira de Nicole Krauss cujo livro “A memória de nossas memórias” já comentei em um post anterior.

Os primeiros capítulos pareceram bastante promissores, mas nos seguintes a leitura começou a ficar penosa. Tenho por costume não descartar um livro à primeira dificuldade encontrada, por isso insisti mais um pouco e logo voltei a mergulhar com interesse na história, para mais uma vez voltar a “empurrá-la com a barriga”.

Mas, afinal de contas, o que estava errado? Não era o tema abordado no livro. Afinal, sempre me interessei por compreender como o estado Israel consegue se equilibrar no meio de tantos conflitos externos, quanto internos. Portanto, nada melhor do que ouvir alguém que os vivera pessoalmente.

Será através de três amigas – personagens principais do livro – que a autora contará a sua experiência e a de tantas outras meninas, que ao terminarem a vida escolar com dezoito anos, prestam obrigatoriamente o serviço militar.

Tempos difíceis cheios de tensão, medo e tédio – não um dia ou uma semana, mas meses de patrulhamentos monótonos e horas de vigília exaustivas. Também não são esquecidas as violências infligidas não só pelo inimigo, mas também pelos companheiros de armas.

O livro tem passagens muito bem escritas, e outras nem tanto. Histórias fragmentadas, que se acumulam desordenadamente para depois se diluírem e  se perderem sem maiores explicações.

Continuarei acompanhando com muito interesse os futuros trabalhos de Shani, mas ao querer abraçar o mundo com as pernas, o livro acabou perdendo a sua força inicial promissora.

*Organização americana sem fins lucrativos, que tem como objetivo promover e valorizar a excelência da literatura  nos EUA

  • O povo eterno não tem medo

Shani Boianjiu

Editora Alfaguara

R$ 42,90

A incrível fuga da cebola

fuga da cebola 2

Preocupa-me a extinção dos cadernos literários nos maiores jornais do país, e o fechamento das pequenas livrarias que ainda ofereciam um atendimento personalizado aos clientes.

Se não fosse por uma resenha, que li num jornal, não teria conhecido “A Incrível fuga da cebola”. Segundo ela trata-se de um livro que propõe questões filosóficas às crianças.

Fiquei curiosa com essa “salada” – uma cebola fugitiva temperada com pitadas de filosofia?

Assim que surgiu uma oportunidade rumei para a livraria. O livro não estava exposto, na verdade estava bem escondido e a vendedora demorou a encontrar um exemplar. Mas valeu cada minuto de espera. “A incrível fuga da cebola” é simplesmente genial!

O livro foi adotado, em algumas escolas, para ser trabalhado em sala de aula com crianças a partir de 6 anos, mas na minha opinião ele atende às mais variadas faixas etárias, inclusive a minha. Basta apenas gostar de um livro criativo e original.

A incrível fuga da cebola” é um daqueles livros que JAMAIS poderá ser lido num e-book. Tudo bem que ele conta uma história. A da cebola que queria fugir ao destino terrível e inevitável de todas as cebolas – ser picada e fritada – mas ele é muito mais que isso! Pode-se e deve-se escrever nele, e principalmente precisa-se folheá-lo – ou melhor, descascá-lo! Ele é um objeto, um brinquedo, diversão da boa!

A-fuga-da-cebola

A cada página virada o leitor ajuda a cebola a realizar seu sonho e, por sua vez, ela nos bombardeia com perguntas e mais perguntas:

O que mudaria mais a sua vida: ter uma aparência diferente ou ter lembranças diferentes”?

Não fazer NADA quando alguém precisa de ajuda torna você tão MAU quanto fazer o MAL?

Definitivamente, um livro diferente daqueles que se leem por aí – inteligente, único, muito especial!

  • A incrível fuga da cebola

Sara Fanelli

Editora Ática

R$ 49,90

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