Palmeiras na Neve

Palmeiras-na-NeveUma amiga, recém-chegada de Portugal, trouxe-me de presente Palmeiras na Neve. Escrito pela espanhola Luz Gabás, o livro fez muito sucesso por lá, mas ainda não foi editado no Brasil. Espero que não demore muito, pois trata-se de um romance com uma pesquisa histórica bem feita, que vale a pena ser lido.

A  ambientação de Palmeiras na Neve lembra a de Equador, livro do jornalista português Miguel Sousa Tavares, que li há 10 anos.  Os dois romances transcorrem em ilhas diferentes – ambas localizadas no Golfo da Guiné – onde os colonizadores europeus sofrem com o clima inclemente das regiões equatoriais, e suas vidas giram em torno da produção, colheita e comercialização do cacau.

A história de Equador se passa no início do século XX quando as colônias portuguesas ainda exploravam a mão de obra escrava – mesmo que de forma dissimulada. Por sua vez, a narrativa de Palmeiras na Neve começa quase cinquenta anos depois, com os espanhóis trabalhando lado a lado dos nativos sem, no entanto, deixarem de ser e ter os privilégios de autênticos colonizadores.

As semelhanças entre os dois livros terminam aí. A trama de Luz Gabás oscila entre o passado e o presente; entre um pequeno vilarejo incrustado na encosta espanhola dos Pirineus – onde os invernos são longos e rigorosos – e a luxuriante ilha de Fernando Pó.

(como fato curioso, para os futuros leitores brasileiros, é interessante saber que os portugueses administraram a ilha até 1777,  quando a cederam à Espanha em troca da ilha de Santa Catarina no sul do Brasil)

Ao remexer em papéis antigos, Clarence – filha e sobrinha de dois irmãos que, em busca de trabalho, trocaram as neves da terra natal pelas palmeiras exuberantes da África – encontra uma carta “diferente”. Uma carta que não se encaixa entre as outras que eles enviaram, durante anos, narrando o cotidiano da fazenda de cacau onde viviam.

Essa carta revela a existência de uma mulher que juntamente com filhos foi deixada para trás, quando o pai e o tio foram forçados a abandonar a ilha, por causa dos conflitos deflagrados durante o processo de independência da ilha. Um segredo que os uniu por várias décadas, e sobre o qual se recusam a falar.

Curiosa, Clarence decide descobrir a verdade, e viaja para Bioko (antiga ilha Fernando Pó) procurando encontrar as pessoas que os conheceram e os lugares por onde andaram.

À medida que a leitura avança percebe-se que o segredo é bem mais terrível do que ela havia imaginado. Como uma raiz que cresce e se desenrola rapidamente, a verdade termina por chegar até ao presente, e com força para destruir as pessoas que Clarence mais ama.

Palmeiras na Neve é um romanção de leitura fácil, que tem um pouco de tudo: história, amor, paixão, segredos, violência… Enfim, um livro para se prestar atenção quando chegar  às nossas livrarias.

O lobo boa gente

fome_do_lobo

Autores e ilustradores nacionais, de livros infanto-juvenis, fazem meus olhos brilharem.

Por esses dias encontrei “A fome do lobo”, escrito por Claudia Maria de Vasconcellos e ilustrado por Odilon Moraes. A história lembra aquelas de antigamente, quando os animais falavam e raciocinavam.

Confesso que apesar da cara feia simpatizei com o lobo. Na verdade identifiquei-me com ele. Se os bichos são espertos o suficiente para convencer o lobo a não comê-los, este apesar de faminto também sabe ouvir e acatar bons argumentos. Sou como ele, se o convencimento for forte, abro mão de meu entendimento anterior, sem quaisquer remorsos.

Mas de justificativa em justificativa, chega uma hora em que a fome fala mais alto e ele, assim como eu, vira um Lobo de verdade! E é com a barriga roncando alto que o lobo entra de supetão, na casa da vovó, bem na hora do jantar. Aí… bom, para saber o final vai ter que ler a história.

Gostei muito do texto ágil e inteligente de Claudia M. Vasconcellos (cheguei a rir baixinho ao imaginar os percalços pelos quais passou o jabuti, pouco antes de quase virar almoço de lobo) e o que dizer das ilustrações? Simplesmente lindas, visto que foram desenhadas pelo craque Odilon Moraes.

Apesar de mal-encarado o lobo desta história é “boa gente” e vai agradar em cheio a todas as crianças que gostam de histórias inteligentes e com animais.

Leitura independente a partir dos 7 anos

A Fome do Lobo

Cláudia Maria Vasconcellos e Odilon Moraes

Editora Iluminuras

R$ 38,00

O bom leitor

Pilha-de-livros

Recentemente li uma entrevista* com o escritor Luis Antonio de Assis Brasil onde dizia que, para ele, o bom leitor era: “O que lê muito len-ta-men-te, buscando a fruição do texto, valorizando cada palavra, cada parágrafo. Um romance que exigiu seis anos de escrita, dúvidas, alegrias e pesares, não pode ser lido numa tarde”.

Realmente, o autor merece ter a sua obra apreciada com vagar e cuidado, mas como isso fica mais difícil de se conseguir a cada dia que passa!

Já comentei antes que não sou uma “devoradora” de livros. Normalmente permito-me uma leitura tranquila que dura em torno de uns quinze dias. Entretanto aquela vozinha interior não para de lembrar que, enquanto leio len-ta-men-te, outros tantos se acumulam. Dessa forma minha insatisfação é permanente, e as anotações de livros, que pretendo ler um dia, não param de crescer.

Recentemente acrescentei mais cinco títulos à lista. Os estilos são bem diferentes, e de autoras que não conheço. Curioso, só agora percebi que os escritores, pelos quais me interessei, são todos mulheres.

O primeiro é “Tipos de perturbação” um livro de contos bem curtinhos, escrito por Lydia Davis, autora americana, e ganhador este ano do prestigiado Man Booker Prize;  depois me interessei por ”O povo eterno não tem medo” primeiro romance de Shani Boianjiu, jovem escritora israelense, que narra o amadurecimento precoce de três amigas, que têm a pouca sorte de prestar o serviço militar obrigatório durante a guerra;  foi através do meu filho que ouvi falar, pela primeira vez, da jornalista Juliana Cunha autora do blog “Já matei por menos”. Os melhores textos foram reunidos em um livro editado pela Lote 42. Quero conhecer o trabalho desta escritora hipster**, que provavelmente logo o deixará de ser, visto que acaba de ser citada no blog de alguém com idade para ser sua mãe;  “Três mulheres fortesfoi escrito por Marie NDiaye e ganhou o prêmio Goncourt 2009. Marie é francesa, mas o sobrenome revela sua ascendência africana – o pai é senegalês;  por último na lista está “Quiçá” de Luisa Geisler, escritora brasileira selecionada pela revista Granta como integrante do grupo dos melhores jovens escritores brasileiros.

Haja tempo e dinheiro para ler tudo o quero!

* Jornal Rascunho  março 2003

**Algo ou alguém que está na vanguarda dos modismos culturais. Quando começa a ser popular ou lugar-comum deixa de ser hipster.

Semeando com carinho

hortaviva

Não deu para resistir, a primeira coisa que fiz quando segurei o livro “A turma da Horta Viva – como tudo começou” foi passar o dedo na capa. As letras que compõem o título têm um delicado relevo, mas são ásperas também – parece que foram desenhadas com terra. Depois quando folheei o livro notei que o papel das páginas era reciclado e, o mais incrível, as ilustrações eram, na verdade, colagens que também utilizavam material reutilizado!

A turma da Horta Viva faz parte de uma coleção direcionada às crianças que moram nas grandes cidades e têm pouco contato com a natureza. Se não a conhecem como poderão lhe dar valor e a proteger?

No primeiro livro da série um grupo de amigos decide limpar um terreno baldio e refazer a horta que ali existia no passado. Bem orientados e com a cooperação dos adultos aprendem a separar o lixo, e recebem a primeira lição: “Terra é terra, não é sujeira!”.

Depois de montar os canteiros descobrirão, entre outras coisas, que as plantas mortas são o adubo das que ali  irão crescer. É engraçada a reação das crianças quando descobrem de que é feito o esterco:

                – Mas não é… – Liz fez cara de nojo.

                – Fezes de boi – completou o professor.

                – Mas é bom para as plantas. E vem bem sequinho, quase sem cheiro. – Riu seu Bentinho.

Aos poucos essa turminha irá aprender que sem cooperação os sonhos não se realizam, e que em uma horta, assim como no planeta Terra, tudo se relaciona e se conecta para que a vida possa acontecer.

O texto foi escrito a quatro mãos por Danilo Netto especialista em desenvolver projetos educativos que ensinam como montar hortas nas escolas e Fernanda Godinho professora do ensino fundamental há mais de 20 anos,  inclusive de meu filho quando este ainda era menino.

As ilustrações/colagens são de outra dupla, Ana Sofia Mariz e Christiane Melo, responsáveis pelo criativo design gráfico da série A turma da Horta Viva.

Por último, a apresentação do livro é de André Trigueiro jornalista famoso por promover o desenvolvimento sustentável e a preservação do meio ambiente.

Ao terminar de ler a última página pensei para comigo mesma: Definitivamente tenho em mãos um livro que foi “semeado” com muito carinho.

  • A turma da Horta Viva – como tudo começou

Danilo Netto e Fernanda Godinho

Zit Editora

R$ 24,90

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