A puxada de tapete II

Coincidências existem? Uns acreditam que sim e outros dizem que não.

O último comentário que escrevi no blog foi sobre O último livro, cuja trama gira em torno das mortes misteriosas ocorridas dentro de uma livraria. Por isso, achei curioso o pequenino texto que encontrei no livro Escrever melhor – guia para passar os textos a limpo.

Escrever-melhor

Três velhinhos viviam juntos. Um dia, um deles morreu. A polícia chegou para saber o que tinha acontecido. O mais falante explicou:

– Ele pegou aquele livro azul e começou a ler. Empalideceu. Suou. Ficou avermelhado, depois roxo e morreu.

Dois dias depois, outro do trio deu adeus à vida. A polícia voltou ao local. O sobrevivente contou:

– Aconteceu a mesma que da outra vez. Ele pegou aquele livro azul, abriu-o, começou a ler. Empalideceu. Suou. Ficou avermelhado, depois roxo e morreu.

O delegado, impaciente, ordenou ao velhinho:

– Apanhe o livro e leia.

Ele seguiu a ordem. Empalideceu. Suou frio. Ficou avermelhado. Quando o roxo se anunciou, tiraram a obra da mão do coitado, fizeram-lhe massagem no coração e perguntaram:

– O que tem esse livro?

– Ah, doutor, o problema não é ter. É não ter.

– Como assim? 

– O livro não tem nem uma vírgula, nem um ponto, nem um travessão, nem um parêntese!

Conclusão: a ausência de pontos, vírgulas & Cia. mata mais que pneumonia.

 

Convenhamos, não é todo o dia que dois textos de estilos tão diferentes apresentam um livro como o “assassino” de seus leitores. Haja coincidência!

  • Escrever melhor – guia para passar os textos a limpo

Arlete Salvador & Dad Squarisi

Editora Contexto

R$ 29,90 (edição de bolso exclusiva na Livraria Cultura por R$ 14,90)

A puxada de tapete

Mas… o que pode haver numa livraria que seja… insalubre?!

 O ultimo livroNão sei o que esperava encontrar quando escolhi ler O último livro. Confesso que desde o início simpatizei com o título e talvez estivesse seduzida com os comentários elogiosos na orelha do livro. Também, nunca tinha ouvido falar desse autor – afinal tratava-se de um escritor sérvio e, por fim, fiquei curiosa em descobrir o que a editora Octavo, que também não conhecia, estaria oferecendo, de diferente, para sobressair no meio dos lançamentos das concorrentes poderosas e há mais tempo no mercado.

A história parecia promissora. Supus que se tratava de um romance policial leve, sem muitos tiros e assassinatos sangrentos, mas com alguns cadáveres.

Mortes inexplicáveis aconteceram numa pequena livraria de bairro. Com a ajuda da proprietária, o policial responsável por solucionar o caso percebe que elas têm algo em comum. Todas as pessoas, aparentemente sem problemas de saúde, faleceram enquanto liam um livro específico. Mas que livro seria esse?

A leitura, graças à boa tradução, fluía bem, até que algo aconteceu na trama e como um puxão brusco de tapete, fez-me perguntar o que, afinal de contas, estava lendo.

Corri para a internet para conhecer melhor o autor.  Zoran Zivkovic, havia-se formado pela universidade de Belgrado na antiga Iugoslávia e defendera teses de mestrado e doutorado falando sobre Ficção Científica!!  Mais tarde tornou-se famoso por apresentar um programa na televisão e escrever uma Enciclopédia ilustrada sobre o mesmo tema. Em 2003 seu livro A Biblioteca  recebeu o prestigiado prêmio World Fantasy Award.

O meu estranhamento estava explicado. Não estava lendo um escritor policial, mas um autor especializado em literatura fantástica!

Talvez se soubesse, desde o início, do que se tratava, não teria interesse em ler o livro – diferente de meu filho não sou fã do gênero, mas como já tinha sido fisgada pela história, continuei.

Posso dizer,com toda a certeza, que não me arrependi. O final foi surpreendente.

Ao reler os comentários concordei com o que fora publicado no jornal genovês (Il Secolo XIX), sobre O último livro: “(…) Uma eficaz metáfora sobre o poder mágico da literatura, do triângulo indissolúvel entre escritor, os seus personagens e o leitor”. Era isso mesmo.

O último livro

Zoran Zivkovic

Editora Octavo

R$ 46,00

Os excluídos

“Matem uma galinha para que todos os macacos travessos fiquem com medo e assim comecem a obedecer” (ditado chinês)

Os-excluidosA história de “Os Excluídos”, aclamado livro da escritora chinesa Yiyun Li, radicada nos EUA, transcorre no final da década de 1970, na esquecida cidade de Rio Lamacento, no interior da China.

Os moradores, em breve, participarão das festividades que precedem o julgamento de uma mulher de 28 anos que, quando jovem, foi ardorosa seguidora de Mao Tsé Tung.

Crédula e inexperiente cometeu o crime hediondo de escrever uma carta, para o rapaz que amava, em que revelava suas dúvidas quanto aos métodos e a eficácia da Revolução Cultural.

Pretendendo obter privilégios para si e sua família, o namorado não tem escrúpulos em traí-la, e entrega a carta ao Comitê Revolucionário da cidade.

Depois de amargar dez anos na cadeia a jovem é condenada à morte, porque o diário escrito na prisão – quando já se tornara um farrapo humano e perdera o sentido de autopreservação – é mais uma prova comprometedora de sua deslealdade para com o Partido Comunista.

Apesar de os vizinhos conhecerem a jovem desde criança, a sua condenação, inicialmente, não os sensibiliza e em nada altera a vida de cada um deles.

Discretamente comentam entre si:

Para cada pobre alma derrubada pelos acontecimentos (…) haveria outra recebendo uma promoção. Um equilíbrio de energia social (…) em que, na verdade, para subir naquele país era preciso usar alguém como degrau. Não se davam ao trabalho de remexer o próprio passado, pois sabiam muito bem que, para atingir aquela idade são e salvos, já tinham tido a sua cota de corpos debaixo dos pés para mantê-los na superfície e aquelas histórias não tinham mais nenhuma importância, pois a vergonha e a culpa haviam sido absolvidas pela velhice”.

Mas querendo ou não, essa execução trará consequências  para a maioria dos moradores de Rio Lamacento. Aos poucos, graças ao texto brilhante e seguro de Yiyun Li, o leitor conhecerá aqueles que iniciaram uma tímida reação, os que serviram como plateia para essa pantomima macabra, os oportunistas sem escrúpulos e aqueles que, sem saber como ou por que, foram levados pela enxurrada dos acontecimentos.

Histórias de vidas que se entrelaçam, repletas de pequenas alegrias e grandes lutas, de ações altruístas e outras bastante cruéis. Vidas insignificantes, esmagadas por uma minoria, que se escora atrás de um “Ideal” que, há muito tempo, perdeu seu frescor e se transformou num mastodonte tirânico.

Quando terminei a leitura de “Os excluídos” pensei: ”Destes ficamos sabendo, mas que horrores serão revelados quando a caixa de Pandora guardada pelos escritores norte-coreanos for, um dia, aberta?”.

Os excluídos

Yiyun Li

Editora Nova Fronteira

R$ 54,90

Ah… Então era isso!?

Noite-Erico-VerissimoSou assinante do jornal literário Rascunho e mensalmente fico a par do que acontece nos bastidores do mundo da leitura. O jornal possui um conteúdo de altíssima qualidade e publica entrevistas com escritores, textos literários e resenhas de livros.

Pois foi graças a uma indicação de Alberto Mussa, publicada no exemplar de janeiro, que fiquei interessada em ler Noite de Érico Veríssimo.

Confesso que, até então, nunca tinha lido nada desse consagrado autor gaúcho. Provavelmente, deveria começar pela leitura de O Tempo e o Vento, sua obra mais conhecida, mas a resenha de Noite atiçou a minha curiosidade e, posso afirmar com toda a certeza que não me arrependi.

O personagem principal não tem nome. Aparece não se sabe de onde e não sabe quem é. Carrega um intenso e inexplicável sentimento de culpa. Foge de algo ou alguém. Acredita que suas roupas, de boa qualidade, e sua carteira, recheada de dinheiro, foram roubadas. Ele é o Desconhecido.

É óbvio, que rapidamente, se torna uma presa fácil para dois vigaristas. Um anão corcunda e um janota de cravo vermelho na lapela, de conversa melíflua e ardilosa. Na companhia desses canalhas perambulará por lugares sórdidos do submundo noturno.

O leitor acompanha tenso o sofrimento do Desconhecido. O livro é envolvente e angustiante. E quando, finalmente, ele recorda quem é e por se encontra ali, estamos quase chegando às ultimas páginas. O final é surpreendente e perturbador.

“Ah… então era isso?!” foi o que pensei quando fechei o livro. “Que tema ousado para ser escrito em 1954… Parabéns, Sr. Érico Veríssimo.”

Noite

Érico Veríssimo

Companhia das Letras

R$ 39,50

Jornal Literário Rascunho

assinatura anual de 12 exemplares R$ 75,00

%d blogueiros gostam disto: