E agora… Como contar?

Quem casa, quer casa e não pensa em separação. Mas quando ela se torna inevitável, como contar para os filhos quando estes ainda são pequenos?

Flanando pela sessão infantil de uma  livraria em Salvador, encontrei dois livros que abordam esse tema tão delicado e espinhoso.

Estavam colocados lado a lado na estante com as capas visíveis, e suas bonitas ilustrações, apesar de possuírem estilos bem diferentes, me atraíram.

No livro “A separação” de Pascale Francotte as cores das gravuras são sóbrias e esfumaçadas. A história é contada por um menino que amedrontado sente a chegada de algo assustador, como uma tempestade.

No livro “Papai e mamãe viraram amigos” de Maeve Vida, também é uma criança que conta  porque é que seus pais se separaram, mas aqui as ilustrações são alegres e muito coloridas. Desde o início percebe-se a existência de uma rede de segurança: o Amor. Este livro inspira-se nos princípios da Yoga, de uma vida saudável e equilibrada.

Ambos os livros procuram ajudar, pais e filhos, a fazer esta travessia a menos sofrida possível. Mostrando que o afeto incondicional jamais deixará de existir, mas que a partir de agora terá que ser dividido e  encontrado em duas casas diferentes.

  A separação

Pascale Francotte

Edições SM – Comboio de Corda

R$ 32,00

  Papai e Mamãe viraram amigos

Maeve Vida

Omnisciência – coleção vencendo desafios

R$ 20,00

Será que é só falta de bom senso?

Estamos em Tiradentes, vila pequenina e charmosa em Minas Gerais. Lugar de excelente gastronomia, com opções para os mais variados paladares.

Em nossa primeira noite, escolhemos jantar num restaurante que é  sempre  citado nos festivais gastronômicos que ali acontecem. O  lugar era uma graça, com decoração charmosa, e um clima romântico reforçado pela iluminação feita à luz de velas.

Chegamos cedo, além da nossa mesa estavam ocupadas outras duas. Uma com um grupo de alemães, a outra com um casal e seu filhinho que deveria ter por volta de seis anos, uma graçinha de menino.

Estávamos encantados, a noite prometia ser das mais agradáveis. A música ambiente na altura certa, um cardápio com opções apetitosas e um vinho delicioso.

Foi exatamente quando erguíamos os copos para brindar, que todos escutamos um berro infantil: “TIRA ISSO DAQUI! AGORA!”Sobressaltados olhamos para a mesa ao lado. A mãe ainda tentou insistir para que o filho comesse alguma coisa, o que fez o menino, não mais uma “gracinha”, gritar de novo: “NÃO VOU COMER ESSA COMIDA! TIRA ESSA COMIDA, AGORA!” O pai calado estava, calado continuou.

Quando finalmente retiraram o prato de frente da criança, os demais clientes procuraram recuperar a serenidade que até então reinava no restaurante. Mas infelizmente o clima romântico estava quebrado. Não era possível namorar tendo uma criança que, mesmo depois de ter seu desejo prontamente atendido, continuava impondo a sua voz sobre todas as outras, enquanto mostrava, em alto e bom som, as suas aptidões de alfabetização recentemente aprendidas.

Mas afinal de contas o que é que um garoto, mal educado de seis anos, estava fazendo num restaurante de alta gastronomia, quando Tiradentes oferece tantas outras opções mais apropriadas para seu paladar e idade?

Há lugares e lugares para levar uma criança. Não a um restaurante onde a musica e a iluminação são suaves e aconchegantes, e os pratos demoram um pouco mais a serem servidos, porque são feitos na hora. É óbvio que uma criança acaba por ficar com sono e irritada.

Falta bom senso a esses pais que obrigam os outros clientes, que pagaram para ter uma noite agradável, a participar das más criações de seu garotinho mimado. Filho se educa em casa e não na rua. 

Cirandando com Nairzinha

Juntamente com mais outros 60 voluntários, terminei ontem o curso de “Contadores de Histórias”.

Oferecido pela Santa Casa de Misericórdia de Salvador, recebemos um aprendizado variado, que, com o auxílio da leitura, nos capacitou a minimizar o sofrimento de crianças que se encontram hospitalizadas.

Iniciado em abril, participamos de várias palestras e oficinas, todas de excelente qualidade. No entanto, foi com chave de ouro que encerramos o nosso aprendizado.

Idealizadora do Cirandando Brasil, projeto este que resgata a importância da brincadeira através da valorização do folclore brasileiro, Nairzinha Spinelli proporcionou-nos uma manhã e tarde de pura alegria e aprendizagem.

Brincando, Nairzinha esclareceu e recuperou a riqueza da cultura indígena, assim como daquelas que  foram trazidas pelos negros e portugueses.

Cantamos, dançamos, improvisamos teatralização, e relembramos jogos e brincadeiras de infância.  Rimos muito, e vi colegas chorarem de emoção por recuperarem boas lembranças há muito tempo esquecidas. Como poderíamos nos aproximar das crianças se havíamos esquecido o que era ser uma?

Antes de encerrar sua oficina “Memórias do Brincar”, Nairzinha sugeriu aos futuros contadores de histórias, a leitura dos seguintes livros:

História das crianças no Brasil –  Mary Del Priori – Editora Contexto R$ 65,00

História das mulheres no Brasil –  Mary Del Priori – Editora Contexto R$ 69,90

Uma História da Cidade da Bahia –  Antônio Risério – Versal Editores R$ 71,00

Brasil-Uma História –  Eduardo Bueno – Leya Brasil R$ 69,90

Dicionário do folclore brasileiro –  Câmara Cascudo – Global editora R$98,00

Casa grande e senzala –  Gilberto Freire – Global Editora R$ 98,00

(Casa Grande e senzala em quadrinhos – Global Editora R$ 45,00)

Um rio chamado Atlantico – Alberto da Costa e Silva – Editora Nova Fronteira R$ 49,90

O povo brasileiro – Darcy Ribeiro – Companhia de bolso R$ 29,50

Negros, Estrangeiros- Manuela Carneiro da Cunha – Companhia das Letras R$ 49,00

Notícias da Bahia–1850  de Pierre Verger – Editora Corrupio (esgotado)

Para aqueles que tiverem interesse em conhecer melhor o trabalho realizado por Nairzinha ou falar com ela, seguem seus contatos:

www.sonsdobem.org.br

nairzinha@nairzinha.com.br

As dicas do crocodilo

Editado recentemente no Brasil, “Os olhos amarelos dos crocodilos” é o primeiro livro da trilogia escrita por Katherine Pancol e esteve várias semanas na lista dos mais vendidos na França, quando foi publicado em 2006.

Leve e despretensioso, é perfeito como leitura de férias, ou então para aqueles momentos em que se está com a cabeça quente e procura-se algo distraído para ler e esquecer os problemas.

A trama envolvendo duas irmãs com personalidades e estilos de vida totalmente diferentes, não é das mais originais.

Iris, a primogênita, é linda, maravilhosa e não tem preocupações financeiras. Por sua vez Josephine é desde pequenina o patinho feio. A primeira é admirada por todo o mundo, a segunda leva uma vida sacrificada no subúrbio e tem uma filha adolescente insuportável.

Tudo muda, quando displicentemente, Iris comenta num jantar que começou a escrever um romance histórico sobre a vida das mulheres no séc. XII. Pressionada a publicá-lo e sem saber nada sobre o assunto, acaba por implorar ajuda à Josephine, que na verdade é  historiadora e uma especialista nesse tema. Por se encontrar às voltas com o pagamento de dívidas elevadas, esta acaba por aceitar participar da farsa criada pela irmã.

Apesar de algumas vezes inverossímeis, as tramas paralelas (e eventualmente apimentadas) fazem com que a leitura deste livro repleto de clichês, não seja de todo desagradável.

No entanto “Os olhos amarelos dos crocodilos” acabou por aguçar a minha curiosidade, ao inserir na trama comentários sobre filmes das décadas de 50 e 60, que até então não conhecia.

Forçada a escrever o romance, Josephine depara-se com uma absoluta falta de inspiração.  Mas ao conversar com sua amiga e vizinha de porta, tem um “estalo” quando esta lhe conta a história do filme que na véspera havia passado na televisão.

A heroína do seu livro seria como a personagem interpretada por Shirley MacLaine, em “What a way to go!” .¹  Nessa comédia romântica, a protagonista principal procura o verdadeiro amor, casa-se quatro vezes e por quatro vezes fica viúva.  Apesar de não dar muito valor às riquezas materiais, cada falecido a deixa mais rica que o anterior e, inevitavelmente sozinha.

Mais uma vez será em outro filme que Josephine encontrará inspiração para compor o perfil de um dos maridos da heroína de seu livro. Ele é a cópia fiel do pregador fanático Harry Powell, personagem de Robert Mitchum, no suspense “The night of the hunter” ², que viaja pelo país seduzindo viúvas ricas para depois do casamento as roubar e assassinar.

Por ultimo, o livro cita o filme “Wild River” ³ com Montgomery Clift, que Josephine, em um  raro momento de lazer, assiste debulhando-se  em lágrimas, por estar dividida entre a história que se desenrola diante de seus olhos e uma retrospectiva interior não muito positiva que faz de sua própria vida.

Procurei esses filmes na videolocadora que frequento em Salvador, mas ela não alugava nenhum dos três. Tentei encomendar e comprar numa grande livraria brasileira, mas só encontrei “The night of the hunter”. O DVD com Shirley MacLaine está esgotado e “Wild River” além de não constar do catálogo, também não pôde ser baixado pelo aplicativo NETFLIX . Restou-me recorrer à “Mãe” de todas as livrarias e lojas de DVD: a Amazon.  Lá encontrei não só os três filmes, mas otras cositas más. Agora é aguardar a chegada do correio!

¹ “A senhora e seus maridos” (Br.) – 1964 –  diretor: J. Lee Thompson, com Shirley MacLaine, Paul Newman, Robert Mitchum, Dean Martin, Gene Kelly

² “O Mensageiro do diabo” (Br.) (1955) –  diretor: Charles Laughton, com Robert Mitchum e Shelley Winters

³ “Rio Violento” (Br.) (1960) diretor: Elia Kazan, com Montgomery Clift e Lee Remick

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