O mundo sem anéis: 100 dias em uma bicicleta

o-mundo-sem-aneisFaltava pouco para chegar ao meu destino quando na última página da revista de bordo, deparei com uma delicada aquarela representando uma menina encaixada  num aro de bicicleta. Embaixo, um trecho entre aspas de um livro e a sua explicação no rodapé da página. Tanto a ilustração quanto o texto fazem parte de “O mundo sem anéis: 100 dias em bicicleta” escrito e ilustrado por Mariana Carpanezzi.

Na hora desejei ter esse livro. Ele combinava duas coisas que me mobilizam, desde que publiquei “A Pergunta mais Importante”. São elas: bicicletas e ilustrações. Mas havia algo mais, ele era fruto de uma publicação independente. Admiro quem se joga e arrisca, por conta própria, no trabalhoso mundo editorial.

Sem ter como anotar o nome do livro, e sabendo que assim que pusesse o pé fora do avião o esqueceria, levei a revista comigo.

Encomendei “O mundo sem anéis: 100 dias em bicicleta” pelo site www.surinamariana.com  e em menos de dez dias tinha-o em minhas mãos.

Confesso que me desapontei um pouco com a capa feita de papel pardo, mas apreciei o projeto gráfico desenvolvido em seu interior. Como brinde veio um delicado marcador de páginas com uma ilustração feita pela autora, e dois mini folders promovendo a organização Bike Anjo.

Misto de guia de viagem randômico, com dicas do que levar, ou não, nos alforjes de uma bicicleta (você sabia que quem pedala longas distâncias não usa cuecas ou calcinhas? entre a pele e a bermuda colante apenas vaselina para não se machucar), “O mundo sem anéis: 100 dias em bicicleta” é o relato de uma jornada muito pessoal feita em estradas francesas, portuguesas e espanholas.

Uma viagem muitas vezes solitária; um virar-se ao avesso; um descascar-se pelo caminho; deixar tudo que pesa e atrapalha para finalmente se encontrar e dizer: Cheguei, estou em casa.

 

  • O mundo sem anéis: 100 dias em bicicleta

Mariana Carpanezzi

http://www.surinamariana.com

http://www.muitolonge.com.br

R$ 40,00

E-book R$ 6,00

 

Quando a linha reta é curva

Uma-dobra-no-tempo

Por vezes, a escolha do próximo livro que pretendo ler não é muito óbvia. Chego até ele por caminhos um tanto ou quanto sinuosos. Não ficou claro? Explico melhor.

Apesar de não ser o meu gênero favorito, recentemente encomendei um livro de ficção científica: Uma Dobra no Tempo. Em 1963, ele ganhou o prêmio Newbery dedicado à literatura infanto-juvenil.

Tudo começou quando li O acerto de contas de uma mãe e deparei com uma citação de C.S. Lewis: “Ninguém me disse que o luto se parecia tanto com o medo.”

Essa frase me impactou. Com ela o escritor e teólogo inglês – mais conhecido por escrever As Crônicas de Nárnia – dá início ao livro A anatomia de uma dor: um luto em observação.

No momento o livro está esgotado, mas o encontrei no site Estante Virtual.

Não foi uma leitura fácil. Sem qualquer pudor, o autor expõe todo o seu sofrimento após o falecimento de sua mulher e como sua fé religiosa foi posta à prova.

O prefácio do livro é de Madeleine L’Engle, uma escritora americana que não conhecia e que é a autora de Uma Dobra no Tempo publicado no Brasil pela editora Rocco.

Com uma pilha de livros por começar, talvez não lhe desse muita importância se não tivesse lido uma notinha de rodapé no jornal, dizendo que Ava DuVernay, diretora do filme Selma, e a apresentadora Oprah Winfrey pretendem adaptá-lo para o cinema. Sou fã de Oprah Winfrey por estar sempre incentivando e divulgando novos livros e autores. Se ela se interessou é porque a história deve ser muito boa e continuar atual.

E foi assim que o desabafo de uma mãe me levou até ao luto de um marido apaixonado que, por sua vez, me apresentou a Uma Dobra no Tempo, onde: “Uma linha reta não é a distância mais curta entre dois pontos.”

As minhas leituras também não seguem em linha reta, elas se desdobram em curvas.

 

  • Uma Dobra no Tempo

Madeleine L’Engle

Editora Rocco

R$ 37,00

 

O acerto de contas de uma mãe

acerto-de-contas-de-uma-maeSó mais tarde reparei que comprara O acerto de contas de uma mãe – A vida após a tragédia de Columbine no dia em que aconteceu o atentado à boate Pulse em Orlando. Será que estava sugestionada por mais um ataque sem sentido, que volta e meia acontece nos EUA? Talvez.

Nunca tive simpatia ou o interesse em saber o que se passava na cabeça desses assassinos malucos. Na verdade, só consigo ter muita raiva deles. Entretanto, sempre quis saber como os familiares e amigos conseguiam tocar suas vidas depois do ocorrido.

Logo nas primeiras páginas me peguei com os olhos marejados de lágrimas e, mesmo sem o querer, me identifiquei com o sofrimento da autora Sue Klebold.

Ela era a mãe de Dylan, um dos dois adolescentes que, em abril de 1999, entraram atirando na escola onde haviam concluido o segundo grau. O desejo de seu filho era matar o maior número de pessoas possível.  Desde o início ele sabia que a chacina terminaria em suicídio, o dele e o do parceiro.

Parece clichê, mas todos os relatos das pessoas que conheceram Dylan disseram que ele era um garoto legal e afetuoso. Não houve nada, absolutamente nada, diferente ou traumatizante em sua criação. Ele era o segundo filho de uma família bem estruturada, amorosa e com sólidos valores éticos.

Tanto a autora quanto o marido sempre foram muito presentes e estavam atentos às mudanças de comportamento do filho, inclusive aquelas consideradas normais em um adolescente. Infelizmente, não perceberam que o isolamento social e o aumento da irritabilidade escondiam algo mais: uma depressão profunda associada a pensamentos suicidas.

No íntimo, eu acreditava que os que estavam ao meu redor eram imunes ao suicídio porque eu os amava, ou porque tínhamos um bom relacionamento, ou porque eu era uma boa observadora, sensível e carinhosa que poderia mantê-los a salvo. Eu não estava sozinha ao acreditar que o suicídio só pudesse acontecer em outras famílias, mas estava errada.

Em momento algo a autora tenta justificar os atos do filho. Inclusive, custa a acreditar que seja ele que aparece nas imagens das câmaras de segurança da escola, ridicularizando e xingando os colegas antes de os matar.

Seu grande remorso foi não ter percebido a tempo o quanto seu filho estava doente e precisava de ajuda.

Como pais, costumamos estar atentos à saúde física de nossos filhos. Os levamos ao pediatra, dentista e a qualquer outro especialista que seja necessário. Mas relutamos em reconhecer que a saúde mental também precisa ser monitorada. Fico imaginando quantas “dores de crescimento” poderiam ser evitadas se houvesse um acompanhamento psicológico preventivo. A não ser que seja algo gritante, achamos que um comportamento diferente é apenas uma fase e que com o tempo as coisas vão se ajeitar. Problemas mentais ou doenças cerebrais, como a autora prefere chamar, são um assunto tabu.

O reconhecimento de sua própria cegueira e a percepção de que a tragédia poderia ter sido evitada impulsionaram Sue Klebold a se expor e escrever este livro.

Em momento algum ela menospreza a facilidade com que se adquirem armas de fogo, mas sua luta é para que se discuta abertamente sobre depressão e suicídio entre jovens. Afinal, pessoas mentalmente saudáveis não se matam nem dão cabo à vida de outras. Em prol dessa sanidade mental, a autora defende, como projeto de governo a inclusão de procedimentos rotineiros nas escolas de todo o país, para detectar a tempo quais jovens apresentam problemas psicológicos.

O acerto de contas de uma mãe é um dos livros mais corajosos que li ultimamente. E por mais que tenha me angustiado, recomendo-o vivamente, não só pela relevância do tema, mas por ser muito bem escrito.

 

  • O acerto de contas de uma mãe – a vida após a tragédia de Columbine

Sue Klebold

Editora Verus

R$ 39,90

Misturadas mas inconfundíveis

 

3 livros II

Na mesinha de cabeceira estão três livros que leio ao mesmo tempo. A disparidade dos temas e autores é tanta que me divirto só de olhar para eles: Lygia Bojunga, Sthephen King e Rubem Alves.

De Lygia leio A Bolsa Amarela. O livro já se tornou um clássico da literatura infanto-juvenil brasileira, mas pasmem, nunca o tinha lido.

A minha edição é das antigas, talvez por isso a capa não seja lá das mais atraentes. Mas o texto, ah o texto… Continua leve, enternecedor, divertido e muito inteligente.

Uma passagem do livro fez lembrar da minha infância. Em dado momento, a personagem principal é forçada a dançar diante dos parentes. Algo que antes a fazia feliz, agora não tinha a menor graça. Eu também costumava dançar para a minha mãe. Até que cresci e essa alegria foi substituída por um sentimento desconfortável que não conhecia, o ridículo. Eu começava a descobrir as minhas próprias vontades e precisava aprender a respeitá-las, mesmo que para isso tivesse que desapontar a pessoa que mais amava.

O segundo livro é Sobre a escrita de Sthephen King. Apesar de não apreciar o gênero literário (terror e fantástico) pelo qual o autor é conhecido, fiquei curiosa em saber quais seriam as razões que o levaram a escrever, e quais as sugestões que teria a oferecer para quem deseja ser um escritor de sucesso como ele.

Ainda estava nas primeiras páginas quando precisei compartilhar com o meu filho a leitura de um parágrafo. Assim como o autor, ele também tomou consciência da irreversibilidade da morte aos cinco anos de idade. Lembro que foi uma época de muitos medos e noites mal dormidas.

Diferentemente de mim, a mãe de Stephen foi bem explícita no dia em que o filho lhe perguntou se já tinha visto alguém morrer. Com riqueza de detalhes, ela contou como presenciara sem poder ajudar e escutara os gritos de uma menina morrer afogada.  Contou também ter visto um desconhecido pular do telhado de um prédio e se espatifar no chão. Para completar, disse que jamais se esqueceu da gosma líquida verde que saiu de dentro dele. Pronto, estava explicado de onde surgiu o fascínio do autor pelo macabro!

O ultimo livro é de Rubem Alves: Se eu pudesse viver minha vida novamente… e as crônicas que o compõem falam de lembranças da infância e a finitude da vida. Apesar de Rubem ser um excelente contador de histórias e possuir um senso de humor aguçado, fiquei um pouco triste com o tom de despedida que trespassava na maioria delas.

Entretanto, em uma das crônicas, ele citou um pintor japonês nascido no século XVII cujas palavras de tão inspiradoras transcrevo aqui:

Desde os 6 anos tenho mania de desenhar a forma das coisas. Aos cinqüenta publiquei uma infinidade de desenhos. Mas tudo o que produzi antes dos setenta não é digno de ser levado em conta. Aos 73 anos aprendi um pouco sobre a verdadeira estrutura da natureza dos animais, plantas, pássaros, peixes e insetos. Com certeza, quando tiver 80 anos, terei realizado mais progressos, aos 90 penetrarei no mistério das coisas, aos cem, por certo, terei atingido uma fase maravilhosa e , quando tiver 110 anos, qualquer coisa que fizer, seja um ponto, seja uma linha, terá vida.

Copiei o texto e desenhei ao redor. Coloquei-o numa moldura e pendurei na parede que fica em frente à mesa onde trabalho. Não tenho mais pressa, sei que o tempo é meu amigo.

 

  • A bolsa amarela

Lygia Bojunga

Casa Lygia Bojunga

R$28,00

  • Sobre a escrita

Stephen King

Suma de Letras (editora Objetiva)

R$ 39,90

  • Se eu pudesse viver a minha vida novamente

Rubem Alves

Planeta do Brasil

R$29,90

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