O gosto do morango

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Assim é a vida. Há os que apoiam e os que discordam, os que aplaudem e os que vaiam, mas recentemente os brasileiros se uniram para elogiar as Paraolimpíadas realizadas no Rio de Janeiro.

Durante onze dias, atletas de diversas nacionalidades e com as mais variadas limitações físicas se superaram em provas que a maioria da população nem se arrisca a praticar. Foco, entusiasmo, determinação, perseverança foram atributos que inspiraram e nos forçaram a refletir sobre o que está sendo feito e o que precisa melhorar para acolher os portadores de deficiências físicas e mentais no dia a dia de uma cidade.

Por essa razão, gostei da feliz coincidência de O gosto do morango, escrito pela baiana Nathalie Guerreiro, ter sido lançado nessa época.

Com muita sensibilidade a autora conta como foi a adaptação de Eduarda, uma menina com dificuldades de locomoção à nova escola. Na verdade foi uma dupla adaptação, porque ela também havia mudado de país.

A primeira reação das crianças não foi das mais simpáticas. A chegada de quem é diferente ou estrangeiro, num grupo onde todos se conhecem, costuma gerar desconfiança.

Mas o gesto de amizade de uma colega fez com que os demais se aproximassem de Eduarda e, ao conhecê-la melhor, deixassem o estranhamento de lado e a incluíssem na turma.

Pode ser feito um paralelo entre o legado das Paraolimpíadas e a mensagem de O gosto do morango. Ambos estimulam a inclusão e nos fazem refletir sobre como uma sociedade se prejudica quando adota um comportamento acomodado e excludente.

Está mais do que na hora de acolhermos as diferenças dos outros para que eles passem a ser nós.

 

  • O gosto do morango

Nathalie Guerreiro

Ana Maria Moura (ilustrações)

Solisluna Editora

R$ 49,90

Sem tempero não dá

 

sem-tempero-nao-da-iiMinha mania por livros de culinária começou na adolescência quando precisei fazer dieta. Ó fase difícil quando a criança que ainda existe dentro da gente quer comer mais uma porção de mousse de chocolate e entra em conflito com a jovem insegura que deseja receber olhares de admiração do sexo oposto.

Na época, os raros livros de culinária eram só de texto, mas as revistas ofereciam imagens dos pratos prontos. Eu acreditava piamente que para emagrecer precisava passar fome e me mortificava colecionando recortes de revistas e jornais. Minha boca estava sempre aguando e o mau humor era constante.

Depois de muitas dietas e besteiras que não merecem ser lembradas, finalmente compreendi que comer em excesso além de aprofundar os meus medos não me permitia aproveitar a vida. Demorei a perceber que tudo era possível, deste que consumido com equilíbrio e moderação.

Diferentemente de muitas pessoas, tenho prazer em apreciar novos sabores. Não tenho receio de provar aquele prato que consta no cardápio e nem desconfio o que seja. Normalmente acerto na escolha, mas já aconteceu do garçom olhar para a minha cara de decepção e me oferecer outra coisa.

De uns anos pra cá venho me aproximando de alimentos e receitas mais saudáveis. Já faz um bom tempo que diminuí o consumo de carne vermelha, substituí o arroz branco pelo integral, acrescentei outros alimentos ao meu cardápio diário, como a aveia, e recentemente incluí o óleo de coco.

Tenho alguns livros de culinária “natureba”, mas fiquei curiosa com o recém lançado livro da chef de cozinha Anna Elisa de Castro: Sem tempero não dá.

Logo nas primeiras páginas fiquei encantada com o jeito de ser da autora. Se há uma qualidade que eu admiro numa pessoa é a gratidão e Anna Elisa dedica um capítulo inteiro para homenagear os amigos e parceiros que a auxiliaram a produzir o livro. A segunda qualidade que aprecio é a Generosidade, e ela é pródiga nisso.

Com uma didática perfeita, Anna Elisa cativa o leitor e o incentiva a experimentar a culinária vegetariana. Está lá a lista de ingredientes que não podem faltar numa despensa, assim como os utensílios necessários para tudo funcionar a contento. As receitas não são complicadas e compõem cardápios diferentes para serem consumidos em duas semanas.

Costuma-se dizer que primeiro comemos com os olhos e depois com a boca. As fotos dos pratos são tão apetitosas, transmitem tanto frescor, que dá vontade de torná-las realidade.

O livro Sem tempero não dá é cria do programa de TV com o mesmo nome, que pode ser assistido na internet. Vale a pena conhecer a simpática chef/apresentadora e sua ajudante pra lá de desembaraçada. Bom apetite!

 

  • Sem tempero não dá
    Anna Elisa de Castro
    Boccato & Companhia Editora Nacional
    R$ 42,90

O Guerreiro da Cultura Nordestina

j-borges

Se tem uma coisa na vida que eu gosto muito é de uma novidade: aprender algo, conhecer um lugar, experimentar um novo paladar. Todas essas experiências fazem meus olhos brilharem de satisfação. Pois foi o que aconteceu no fim de semana passado quando participei como convidada da Convenção Nacional dos Lojistas, realizada em um resort no litoral norte de Salvador.

O evento teve início na noite de quinta-feira com a artista baiana Ana Mametto, que não conhecia, cantando canções de Dorival Caymmi. Que voz maravilhosa, que molejo, que presença de palco. Fiquei simplesmente encantada.

No dia seguinte começaram as atividades “mais sérias’”: Algumas mesas redondas debatendo a situação do varejo, e outras com temas afins, às quais não tinha obrigação nem interesse em assistir. Mas como ignorar a oportunidade de ouvir, ao vivo e a cores, o filósofo Clóvis de Barros Filho falar sobre Inovação: Conceito, Atitude e Identidade?

Como era de se esperar ele falou bastante sobre a o comportamento ético, tanto na vida profissional quanto na particular. Com seu jeito nerd e ao mesmo tempo inflamado arrancou facilmente boas risadas e aplausos da platéia.

Quase no final da manhã foi a vez de um outro palestrante falar sobre Educação. O evento estava me agradando muito e por isso fiquei curiosa quanto ao orador do dia seguinte, Bráulio Bessa, sobre quem não tinha nenhuma informação.

Fiz uma pesquisa rápida na internet e fiquei sabendo que se tratava do neto de Dedé Sapateiro, escritor, poeta cordelista, empreendedor social, palestrante e consultor do programa Encontro com Fátima Bernardes da Rede Globo.

Sei… Apesar de todos os atributos ainda não estava muito convencida. Será que valeria a pena perder uma manhã à beira da piscina do resort? A mudança do tempo decidiu por mim. Começou a chover e ventar e não tive outra alternativa a não ser me dirigir para o auditório.

Bráulio Bessa tem apenas 31 anos de idade, um sotaque carregado e nasceu numa cidadezinha de apenas 18 mil habitantes no interior do Ceará. Sua apresentação sobre “O jeito arretado de empreender” foi uma surpresa bonita e arrebatadora.

Tudo começou quando, ainda adolescente, a professora lhe apresentou à poesia de Patativa de Assaré. Encantou-se com o que escutou. Um gênero literário cadenciado que falava de amor, traição e problemas sociais. Naquele momento despontava um cordelista. Infelizmente, como não era possível viver só de poesia fez também faculdade de Análise de Sistemas.

Bráulio sempre teve muito orgulho de suas origens, quer as familiares quanto as regionais. Logo percebeu que poderia usar seus conhecimentos de informática para divulgar a Cultura do Nordeste.

Seu projeto Nação Nordestina surgiu em 2011, numa época em que os conflitos políticos nacionais acirraram o preconceito contra os nordestinos.  A página criada no Facebook foi um tremendo sucesso. De todos os cantos do mundo vieram mensagens de solidariedade e apoio.

Mas Bráulio queria mais. Logo estava gravando vídeos onde declamava não só os próprios versos como os de outros poetas com o intuito de resgatar e divulgar a literatura de cordel.

Mais uma vez o seu trabalho espalhou-se como rastilho de pólvora pelas redes sociais e ele começou a ser convidado para dar palestras pelo Brasil a fora.

Mas estou aqui falando, falando quando posso convidá-los a ver a apresentação de Bráulio Bessa no evento TEDx – Fortaleza que aconteceu em maio. No meio de tanta indigência artística é bom conhecer alguém cujo talento faz os nossos olhos brilhar.

 

SOBRE A VIDA

Só eu sei cada passo por mim dado

nessa estrada esburacada que é a vida,

passei coisas que até mesmo Deus duvida,

fiquei triste, capiongo, aperreado, 

porém nunca me senti desmotivado,

me agarrava sempre numa mão amiga,

e de forças minha alma era munida

pois do céu a voz de Deus dizia assim:

-Suba o queixo, meta os pés, confie em mim,

vá pra luta que eu cuido das feridas. 

O Livro do Destino

O-livro-do-destinoNão lembro quais caminhos me levaram até “O Livro do Destino”, escrito pela iraniana Parinoush Saniee. Só sei que ali estava ele, aguardando por um clique meu no carrinho do site de compras.

Recentemente fiquei profundamente chocada com uma foto que circulou na internet, mostrando uma mulher sendo forçada por policiais a se desnudar numa praia no sul da França, simplesmente porque estava vestida com um burquini.  Concordo que por razões de segurança a burqa e o niqab devam ser proibidos, mas as outras formas de se cobrir são uma escolha pessoal e não devem ser reguladas pelo Estado. Nunca soube de uma freira ser impedida de usar o véu ou vestir o hábito religioso.

Atualmente debate-se como diferenciar o que é respeito a práticas culturais, que muitas vezes parecem exóticas e inadequadas, e a conivência com costumes degradantes sob a alegação de serem manifestações culturais de um grupo social ou religioso.

No mundo ocidental é inadmissível uma mulher não ter acesso a uma educação formal, ser forçada a um casamento arranjado pelos parentes ou sofrer qualquer tipo de mutilação física. Como conviver com culturas tão diferentes da nossa sem, no entanto, desqualificá-las por completo?

Mais uma vez estamos vivendo uma revolução de costumes. Não algo restrito a um choque de gerações – como ocorreu nas décadas de 60 e 70 no século passado -, mas outra de magnitude mundial.

“O Livro do Destino” chegou na hora certa. Escrito na primeira pessoa, parecia que diante de mim estava Massoumeh, a personagem principal, contando toda a sua vida. Da amizade com uma colega do colégio de temperamento alegre e desafiador, às emoções percebidas quando amou pela primeira vez e de como esse sentimento inocente foi enxovalhado pelos irmãos. Ao acharem que a honra da família havia sido maculada, a forçaram a se casar com um desconhecido.

Tratada, como a maioria das mulheres no mundo muçulmano, como cidadã de segunda classe, é graças aos estudos que Massoumeh consegue se equilibrar numa sociedade onde as regras do permitido ou não mudam de acordo com a corrente política dominante no país.

Por necessidade, Massoumeh atreveu-se a voar mais alto que sua mãe, irmã, cunhadas e vizinhas, mas como diz o ditado: uma única andorinha não faz o verão. Como todas elas, o seu desejo de felicidade terminou por ser sufocado pelos costumes preconceituosos.

Se o policial que humilhou a muçulmana na praia descesse de sua torre de verdades imutáveis e procurasse se informar um pouco mais sobre a realidade das mulheres muçulmanas, com certeza não teria agido da mesma forma que os opressores de Massoumeh. Como bem disse o escritor inglês Graham Greene “Não podemos odiar aquilo que conhecemos”.

 

  • O Livro do Destino

Parinoush Saniee

Editora Bertrand Brasil

R$ 52,90

 

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