Uma questão de prioridades

Manual-de-desculpas-esfarrapadasExploro as estantes da sala de leitura na escola municipal onde sou voluntária, e encontro o “Manual de desculpas esfarrapadas”, do escritor Leo Cunha. A edição que tenho em mãos é de 2004 e está em bom estado. Divirto-me com as crônicas, até que chego a uma que toca num tema espinhoso: por que se lê tão pouco no Brasil?

No texto, o escritor narra o encontro que aconteceu entre pais, alunos e o também escritor Pedro Bandeira, em um colégio da elite financeira de São Paulo.

Em dado momento, uma senhora reclamou do preço alto dos livros. O escritor olhou para ela e reparou nos tênis importados que os filhos calçavam. Na mesma hora, retrucou:

“Ô, minha senhora, não é o livro que é caro. É a senhora que prefere investir no pé do que na cabeça dos seus filhos”.

Não é preciso dizer que o auditório veio abaixo de tanta risada. Fico até com pena do puxão de orelhas que a senhora levou. Entretanto , o escritor estava coberto de razão.

Afinal, quais são as prioridades dos brasileiros quando vão as compras? Por certo não são os livros.

Independentemente da classe econômica-social, o que importa é ostentar. Quer seja um corpo sarado, a festinha de aniversário do filho, ou o exagero na compra de bens supérfluos que comprometem o orçamento familiar.

Enquanto se priorizar o invólucro ao conteúdo, o retrato da educação no Brasil continuará sendo um vergonhoso 63º lugar.*

 

*Resultado do Brasil na prova aplicada em setenta países pelo Programa Internacional de Avaliação de Estudantes (PISA)– 2015

https://g1.globo.com/educacao/noticia/2019/02/06/colombia-ultrapassa-brasil-em-ranking-de-educacao-com-foco-em-professores-e-avaliacao-de-aprendizagem.ghtml

 

  • Manual de desculpas esfarrapadas

Leo Cunha

FTD

R$ 50,00

Difícil de acreditar

Ano que vem todas as escolas públicas do país deverão possuir uma biblioteca. Como se trata de uma lei promulgada em 2010*, em tese, poderíamos dizer que houve tempo suficiente para implementar essa norma. Infelizmente, duvido que isso venha a acontecer. Pela minha experiência, como voluntária numa escola municipal, sei das dificuldades enfrentadas pela direção para manter em funcionamento a sala de leitura da instituição.

Se a secretaria de educação da prefeitura não consegue completar o quadro de professores necessários para estar nas salas de aula; se é preciso recolher donativos, entre os funcionários e voluntários, para cobrir as despesas de recuperação das salas que foram atingidas pelas destrutivas chuvas de verão; então, é difícil acreditar que, no próximo ano, cada escola terá um profissional dedicado à biblioteca. (Para que uma sala de leitura possa ser chamada de biblioteca é preciso a presença de um profissional especializado, no caso um bibliotecário.)

Não fosse pela parceria com a OSCIP “Parceiros da Educação”, a sala de leitura estaria fechada. Uma amiga – sabendo o quanto esse assunto me mobiliza – indicou-me para trabalhar como voluntária. Agora, uma vez na semana, sou monitora de leitura das turmas do 4º e 5º ano.

Lembro da primeira vez que visitei o lugar onde iria trabalhar. Tive a impressão de entrar numa sala repleta de preciosidades literárias.

Mesmo reconhecendo que muitos livros precisam ser descartados ou substituídos por outros mais novos, a sala de leitura é um oásis para os alunos que, infelizmente, ainda não perceberam o seu imenso valor.

Até 2014, o governo federal investia na renovação dos acervos das bibliotecas escolares. Chegavam às mãos das crianças os lançamentos estalando de novos. Mas, de lá para cá, isso deixou de acontecer.

Como seduzir as crianças com livros visualmente pouco atraentes? Primeiro, é preciso oferecer “iscas” suculentas, para depois mostrar-lhes as machucadas, com as páginas soltas. Elas também podem ser bem saborosas. Foi assim, arrumando estantes e livros que encontrei “Os restos mortais”.

Publicado em 1994, o estado físico do livro não era dos melhores. Folheei-o com curiosidade. Afinal, tratava-se de uma história escrita pelo exímio contador de histórias, o mineiro Fernando Sabino. Os contratempos do personagem principal para enterrar um empregado que era muito estimado pelo seu pai, possuem um humor ácido que contrasta com o final sensível da narrativa.

Ano passado o governo federal lançou um edital para retomar o programa de distribuição de livros nas escolas públicas. Os que forem selecionados deverão ser entregues no final deste ano, e só estarão disponíveis nas salas de leitura em 2020. Já não era sem tempo.

A leitura é a seiva que nutre toda aprendizagem. Se as crianças não descobrirem o  quanto ela pode ser prazerosa, logo os estudos se tornarão enfadonhos e, possivelmente, abandonados. Muitas vezes, a sala de leitura é o único lugar onde os alunos, que estudam em escolas socialmente mais vulneráveis, têm acesso aos livros.

Como é possível descuidar de algo tão importante, num país tão desigual quanto o nosso?

*lei 12.244 de 2010

  • Os restos mortais

Fernando Sabino

Editora Ática

R$ 45,00

 

Sem lugar no mundo

Sem lugar no mundo foi encontrado por acaso em 2010, numa barraca de caridade, na cidade francesa de Nice. A publicação de 1945 era de uma editora suíça que não existe mais. Não sei se quem o descobriu se interessou pelo livro porque no passado tinha conhecido a autora ou, se ao folheá-lo, percebeu a importância do que tinha em mãos.

Nele, Françoise Frenkel, conta como era a sua vida em Berlim, antes dos nazistas chegarem ao poder, e o pesadelo que viveu até conseguir refúgio na neutra Suíça.

Apaixonada por livros, ela surpreendeu-se quando, ao visitar a capital da Alemanha em 1921, teve dificuldade em encontrar um estabelecimento que vendesse livros em francês. Ciente de que a cidade possuía uma vida cultural intensa e sofisticada, decidiu abrir a primeira livraria francesa de Berlim. Durante um bom tempo “La Maison du Livre” fez bastante sucesso. Era o ponto de encontro de intelectuais e estudantes, ávidos pelas novidades que chegavam de Paris.

Quando as perseguições aos judeus começaram, a loja de Françoise tornou-se um lugar não só perigoso, mas também inviável, e ela precisou fugir.

A autora buscou refúgio na França, visto que a Polônia, seu país natal, estava sob o jugo alemão. Não demorou muito para que essa escolha se mostrasse desastrosa. Passados nove meses de relativo sossego precisou iniciar uma nova fuga, desta vez, para o sul do país. A tranquilidade durou pouco. Acovardado, o governo francês dobrou-se ao inimigo, e ajudou-o na perseguição aos judeus.

Françoise escondeu-se em Nice, mas ali também não era seguro. Se fosse descoberta seria deportada imediatamente para um campo de extermínio. Fugir para o país vizinho não era uma opção, pois os italianos eram aliados dos alemães. Restava vencer uma montanha de papéis e carimbos burocráticos para depois enfrentar uma longa e extenuante marcha até à Suíça.

Este não foi o primeiro relato que li sobre as atrocidades cometidas contra os judeus. Normalmente são romances históricos ficcionais. Cria-se uma empatia com os personagens, mas nada é tão angustiante quando se sabe que quem escreveu, realmente, viveu tudo aquilo. Alguém que poderia ser um conhecido, um amigo, ou talvez o nosso professor do colégio ou da faculdade.

Óbvio que todas as medidas adotadas pelos nazistas foram asquerosas, mas sempre se podia jogar a culpa no governo, dizer que não se votou neles, e lavar as mãos como Pôncio Pilatos. O que me incomoda profundamente nesses relatos é que não há desculpa para as mesquinharias cometidas por pessoas comuns. Como aquela feita por uma castelã, que inicialmente aceitou esconder a autora mediante o pagamento de uma importância considerável. Entretanto, assim que soube que a polícia a vigiava, em vez de simplesmente mandá-la embora, não teve a decência de guardar para si o que pensava e disse irritada:

Quantos aborrecimentos! Se pudesse prever toda essa chateação, jamais teria aceitado essa missão. Ah, de jeito nenhum!

Durante quatro anos a autora perambulou de um esconderijo para outro. Sentiu fome, frio e muito, muito medo. Quase sempre sozinha, eventualmente contava com a ajuda de algum francês corajoso. Dessa forma, Françoise Frankel conseguiu entrar clandestinamente na Suíça, onde finalmente pode se sentir segura. Foi lá, no centro de uma Europa em guerra, que escreveu Sem lugar no mundo.

Ao falar da sua jornada pessoal, Françoise Frankel nos faz lembrar dos judeus que não sobreviveram.

 

  • Sem lugar no mundo

Françoise Frankel

Editora Bazar do Tempo

R$ 54,00

Um poema para Gloria Bell

Fui ver o filme Gloria Bell porque aprecio bastante o trabalho de Juliane Moore e John Turturo. Sabia que era a  reconstituição de um filme chileno (Glória), que eu tinha visto há algum tempo e gostado. Ambas as versões falam de uma mulher madura, divorciada e emocionalmente bem resolvida, que está pronta a viver um novo relacionamento amoroso.

Uma cena em especial chamou-me a atenção. Foi quando o personagem masculino leu em voz alta uma poesia. Ele não disse de quem era, mas pela capa do livro percebi tratar-se de um escritor latino-americano.

Ao chegar em casa, descobri que não era um poema romântico, como imaginei a princípio, mas um texto escrito para alguém que havia tentado o suicídio.

Poema para uma jovem amiga que quis tirar a própria vida

Eu gostaria de ser um ninho, se tu fosses um passarinho
Eu gostaria de ser um lenço, se tu fosses um pescoço e estivesses com frio
Se tu fosses música, eu seria uma orelha
Se tu fosses água, eu seria um copo
Se tu fosses a luz, eu seria um olho
Se tu fosses um pé, eu seria uma meia
Se tu  fosses o mar, eu seria uma praia
E se tu ainda fosses o mar,
eu seria um peixe e nadaria em ti
E se tu  fosses o mar, eu seria sal
E se eu fosse sal,
tu serias alface,
um abacate ou, pelo menos, um ovo frito
E se tu fosses um ovo frito,
eu seria um pedaço de pão
E se eu fosse um pedaço de pão,
tu serias manteiga ou geleia
Se tu fosses geleia,
eu seria o pêssego na geleia
Se eu fosse um pêssego,
tu serias uma árvore
E se tu fosses uma árvore,
eu seria tua seiva
e correria em teus braços
como sangue
E se eu fosse sangue,
viveria em teu coração.

 

O autor do poema é o escritor, fotógrafo e artista visual chileno, Claudio Bertoni.

Versão Original: http://www.lediorosa.com.br/poesias/poema-una-joven-amiga-intento-quitarse-la-vida-claudio-bertoni/

 

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