Kafka e a boneca viajante

Uma amiga adepta do desapego convidou-me para dar uma olhada nos livros que pretendia doar. Entre vários, um livro fininho chamou-me a atenção: Kafka e a boneca viajante.

O livro escrito por Jordi Sierra i Fabra venceu em 2007 o Prêmio Nacional de Literatura Infanto-Juvenil da Espanha. Desde muito cedo, o autor de nacionalidade catalã se apaixonou pelo ofício de contar histórias. Era ainda um garoto, de apenas doze anos, quando escreveu um romance (nunca publicado) com quase quinhentas páginas.

Na presente história, o autor parte de um fato verídico que aconteceu um ano antes de Franz Kafka morrer, e que posteriormente foi lembrado por sua companheira, Dora Dymant, em conversas com amigos.

Ao caminhar por um parque em Berlim, o casal encontrou uma menina – inexplicavelmente sozinha – chorando desolada porque havia perdido a boneca preferida. Tentando confortá-la, o famoso escritor disse que, com certeza, a boneca tinha viajado e que lhe mandaria uma carta contando as novidades. Para convencê-la, o escritor – conhecido por seu temperamento atormentado e anti-social – disse que era um carteiro de bonecas e que no dia seguinte traria uma carta escrita pela boneca fujona.

Durante três semanas Franz Kafka, que não teve filhos, dedicou seu tempo e talento para consolar uma criança desconhecida. As cartas nunca foram encontradas e foram apreciadas apenas por uma única leitora, cuja verdadeira identidade também nunca foi descoberta.

Para que essa breve e improvável amizade não caísse no esquecimento, Jordi Sierra i Fabra imaginou como essas cartas poderiam ter sido escritas. Respeitosamente, o autor catalão debruçou-se sobre as primeiras perdas e sofrimentos da infância, ao mesmo tempo em que com ternura estimulou a menina a acolher com alegria e confiança os acontecimentos e mudanças em sua vida, assim como na de uma simples boneca.

 

  • Kafka e a boneca viajante

Jordi Sierra i Fabra

Editora Martins Fontes

R$ 39,90

 

Canção de Ninar

Há certos livros que demoro a pegar por causa do tema. Se por um lado ele aguça a minha curiosidade, por outro me deixa desconfortável. Olho para o livro meio de esguelha e me pergunto: será que tenho coragem?

A primeira vez que isso aconteceu foi com Paula, de Isabel Allende.  O assunto não poderia ser mais triste. O relato de uma mãe – no caso ela própria – falando sobre a filha que morreu aos 28 anos vítima de um erro médico.  Inquietava-me mergulhar no sofrimento da autora e encontrar uma leitura deprimente. Inacreditavelmente, não foi o que aconteceu. Apesar de ter lido Paula há muitos anos, lembro que foi uma leitura envolvente. Terminei com a sensação de que a autora conseguira fazer as pazes com uma dor imensurável e homenagear a curta vida da filha.

Recentemente voltei a ficar dúvida se deveria ler ou não outro livro. Desta vez foi Canção de Ninar, vencedor do Prêmio Goncourt de 2016, escrito pela franco-marroquina Leïla Slimani.

As opiniões das vendedoras que consultei na livraria do Leblon eram opostas: Enquanto uma dizia que em hipótese alguma leria algo sobre o assassinato de crianças – principalmente agora que era avó de um menino -, a outra o recomendava vivamente, alegando tratar-se de uma história muito bem narrada, graças ao estilo claro e direto da autora.

Como descobri depois, tanto este quanto o primeiro romance de Leila Slimani não são nem um pouco adocicados ou rasos. Ela gosta de mergulhar no lado sombrio da alma humana.

Se o livro Canção de Ninar foi inspirado num fato verídico que aconteceu nos EUA – o assassinato de duas crianças pela babá colombiana -, No Jardim do Ogro é tão perturbador quanto. Neste, a personagem principal sofre por ser ninfomaníaca. As duas narrativas transcorrem em ambientes familiares aparentemente serenos, que de uma hora para a outra são chacoalhados por acontecimentos devastadores.

Canção de Ninar escancara o pesadelo mais inconfessável de todos os pais que, pelas razões mais diversas, precisam deixar os filhos com estranhos. Esse medo costuma ser maior nas mães e, às vezes, vem acompanhado de um sentimento de culpa por não se sentirem realizadas exclusivamente com a maternidade.

Por mais apavorante que seja a história, ela serve de alerta para quando preferimos não prestar atenção a pequenos sinais de que algo não vai bem, e os empurramos para debaixo do tapete, esperando que tudo se resolva com o tempo.

Recomendo a leitura de Canção de Ninar, mas desde já aviso: é uma paulada violenta, difícil de ser esquecida.

 

  • Canção de Ninar

Leïla Slimani

Tusquets Editores

R$ 41,90

 

Ai que saudade!

Passei duas tardes inteirinhas passeando por Lisboa sem sair de casa. Graças ao guia Vá a Lisboa e me leve com você!, escrito pela embaixatriz Elza Maria da Costa e Silva Lima, e que atualmente mora com o marido em Abuja*. (como anda a sua Geografia? A minha, péssima. Precisei pesquisar na internet para saber onde fica esse lugar)

Revisitei lugares e conheci outros que surgiram desde a última vez que estive a passeio em Portugal. Relembrei expressões introdutórias de uma conversa que não são usuais no Brasil, como: Desculpe lá…, Não se importa… Já agora…, e uma palavra que a encerra: Obrigadinha!

Aprendi que se costumava comer os pastéis de nata acompanhados por vinho verde, mas que atualmente eles são consumidos com um cafezinho ou uma “bica”. Achei curiosa a primeira combinação, por não ser um tipo de vinho que acompanha um doce, e procurei saber mais a respeito. Apesar de não ter encontrado nenhuma confirmação desse hábito, aprendi que um pastel de nata vai muito bem com um cálice de um vinho generoso, como um Madeira, um Moscatel ou um Porto Tawnay.

Reza a lenda que os pastéis de nata são uma criação original dos monges que viviam no Mosteiro dos Jerónimos. Entretanto encontrei quem contrariasse essa teoria, alegando que desde o reinado de D. João II os homens estavam não só proibidos de mexer em açúcar, como de consumi-lo. Essa seria uma das razões pela qual a tradição da doçaria portuguesa está tão ligada ao sexo feminino.

Enquanto lia Vá a Lisboa e me leve com você, deu-me uma saudade da minha irmã que mora em Portugal e liguei para ela. Aproveitei para perguntar o que era “uma meia torrada aparada”. Ela me disse que ao se pedir numa cafeteria “uma torrada” são servidas duas.  No caso específico, “meia torrada” é uma única fatia de pão de forma onde a côdea (casca) foi retirada. Ah, agora entendi!

Como ela mora em Campo D’Ourique, contei que na próxima vez que for a Portugal quero conhecer o restaurante mais tradicional do bairro, o Coelho da Rocha (e isso lá é nome que se dê a um restaurante?!). Ela me disse que sim, mas que preferia me levar n’O Magano. Lá fui eu de novo procurar saber o significado dessa palavra e fiquei surpresa com a resposta. Magano quer dizer ardiloso, velhaco, folgazão. Os portugueses escolhem cada nome para os seus estabelecimentos comerciais!

Bom, mas por causa do guia já comecei a montar o meu roteiro de viagem. Quero subir na cobertura sinuosa ou “lombo” do novíssimo Museu de Arte, Arquitetura e Tecnologia (MAAT), localizado à beira do rio Tejo; almoçar com a minha irmã no restaurante Magano, especializado em comida alentejana; conhecer o Palácio dos Marqueses de Fronteira (segundo a autora, “talvez seja o palácio mais memorável que você poderá ver em Lisboa”) e que foi construído no séc. XVII pelo primeiro Marquês de Fronteira. Até hoje os descendentes moram ali e por essa razão não abre à visitação nos finais de semana.

Quero também tomar um sorvete na minha sorveteria do coração, Santini (apesar das más línguas dizerem que a melhor sorveteria de Lisboa é a Nannarella); visitar o Museu Nacional do Azulejo, renovado recentemente, e admirar o painel intitulado O Casamento da Galinha;

Tomar chá no antigo salão de baile do Palacete Chafariz d’El Rei, construído por um português que fez fortuna no Brasil no início do século passado. Esse lugar tem uma arquitetura tão exótica que as autoridades tentaram demoli-lo por atentado ao bom gosto urbano.

Nunca imaginei que a leitura de um guia de viagens pudesse ser tão prazerosa. Vá a Lisboa e me leve com você! estimulou-me a rever os meus conhecimentos sobre os reis e a História de Portugal: estudei a sucessão monárquica desde D. Pedro IV (D. Pedro I do Brasil) até o seu tataraneto D. Manuel II, que foi deposto no início do século passado, quando foi instaurada a República. Aprendi também quantas capitais teve Portugal (se me perguntassem num desses programas de perguntas e respostas eu seria sumariamente eliminada). Foram cinco no total: Guimarães, Coimbra, Rio de Janeiro, Angra do Heroísmo ** (!!) e Lisboa.

Com toda a certeza Vá a Lisboa e me leve com você! estará comigo na próxima vez que o meu destino for o Aeroporto da Portela.

Ai que saudade!

 

*capital da Nigéria! Achou que era Lagos, não é?

**cidade no arquipélago dos Açores

 

  • Vá a Lisboa e me leve com você!

Elza Maria da Costa e Silva Lima

Topbooks

R$41,90

Uma opinião sincera

Quando soube que o novo livro de Dennis Lehane tinha chegado às livrarias, fiquei toda animada. Não sou exatamente uma fã de literatura policial, mas desse autor já li Sobre Meninos e Lobos e Gone Baby Gone e gostei muito. Ambos abordam o desaparecimento de crianças em circunstâncias diferentes e são histórias bem impactantes.

Tanto um quanto o outro viraram filmes, sendo que o primeiro foi dirigido por Clint Eastwood e premiou Sean Penn com o Oscar de Melhor Ator e Tim Robbins com o de Melhor Ator Coadjuvante no ano de 2004. O segundo filme recebeu no Brasil o título de Medo da Verdade e foi dirigido por Ben Affleck. O elenco tem ótimos atores, como o irmão do diretor Casey Affleck, Morgan Freeman, Ed Harris e Amy Ryan, que concorreu ao Oscar de melhor atriz em 2008.

Apesar da pilha de livros que me aguardava em casa, não resisti ao ver Depois da Queda na seção de lançamentos. Lembrei dos livros que tinha para ler, mas nenhum deles me apetecia. Era como se pudesse escolher entre comida italiana, japonesa ou churrasco, quando na verdade eu desejava um acarajé. E, naquele momento, o meu “paladar” aguava por um bom suspense. O funcionário do caixa só fez reforçar a minha escolha ao comentar: “excelente leitura para se fazer no final de semana”.

Eu sabia que não iria conseguir ler um livro de quase 400 páginas em apenas dois dias, muito menos quando pretendia assistir a alguns filmes concorrentes à premiação do Oscar marcada para o próximo domingo. Além disso, queria ver os finais das últimas temporadas no Netflix de Merlí e Club de Cuervos. Mesmo assim, encontrei uma brecha para iniciar a leitura de Depois da Queda.

A história arrancou muito bem, capturando o meu interesse logo no início com a consumação de um assassinato. Depois, a narrativa retrocedeu à época em que a personagem principal, Rachel, procurava incessantemente descobrir quem era o pai, e sofreu um colapso nervoso durante uma transmissão ao vivo na TV. Este episódio terminou não só com a promissora carreira de jornalista como também com o seu casamento.

Psicologicamente destruída, Rachel afastou-se dos amigos e buscou refugio trancando-se em casa. Os meses se sucederam, mas ao precisar sair para assinar os papéis do divórcio, acidentalmente reencontrou alguém que conhecera no passado. Uma relação bonita se iniciou entre os dois, culminando em um novo casamento para ela. Com paciência o marido aceitava os ataques de pânico que aprisionavam Rachel em casa.

Um dia, depois de muita insistência, ela saiu para almoçar fora com uma amiga. Ao retornar para casa, Rachel presenciou algo que fez a história virar de cabeça para baixo.

O problema é que a partir deste ponto a primeira parte da narrativa meio que se tornou dispensável. Como se uma nova história, de ritmo bem mais nervoso mas desconectada da anterior, começasse de fato.

Para quem já escreveu histórias tão marcantes como a dos livros mencionados anteriormente, a de Depois da Queda é, a meu ver, totalmente absurda. Isto para não falar do final que é bem inverossímil.

Acredito que se for levado às telas do cinema, Depois da Queda até pode funcionar como uma distração interessante. A regra é de primeiro ler o livro para depois se ver o filme, mas neste caso é totalmente desnecessário.

 

  • Depois da queda

Dennis Lehane

Companhia das Letras

R$ 54,90

E-book R$ 37,90

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