Avó em dobro

Em tempos de corona vírus, as redes sociais andam frenéticas. Muitas notícias falsas, outras relevantes e as minhas favoritas: as postagens divertidas.

Peço desculpas por reescrever uma piada que, com certeza, já leram centenas de vezes, mas ela me fez rir quando chegou pela primeira vez no WhatsApp: “Querido Deus, podemos desinstalar o ano de 2020 e reinstalá-lo? Veio com um vírus!”

Diferentemente de quem o enviou, não quero deletá-lo, não. Apesar dos pesares foi no início do mês que nasceu o meu primeiro neto e, como podem imaginar, estou explodindo de felicidade.

Assim que espalhei a notícia, recebi no mesmo dia de minha amiga C. um presente especial, Colo de avó, escrito por Roseane Murray e ilustrado por Elisabeth Teixeira.

A casa da avó

às vezes é um circo.

A avó é a palhaça Coração,

de peruca cor-de-rosa

e retalhos no macacão

(…)

O neto é mágico, domador de feras

e engolidor de fogo,

tira moedas e a sortes das orelhas.

Às vezes, a farra é tanta

que a avó-coração se derrete

e inunda a sala

de sinos e risos.

C. me avisou que apesar de o livro ser encantador, em breve eu receberia outro, com o qual me identificaria mais.

Dito e feito, uma semana depois chegou Minha avó, escrito e ilustrado pela Mariana Massarani. Ele conta a história de uma menina que conversa com a avó através da internet. É o jeito possível de demonstrar amor e carinho, quando se mora bem longe de quem se gosta.

O mesmo acontece comigo e com meu neto: um oceano e muitas terras nos separam. Se não fosse essa pandemia… Ah, com certeza eu estaria, neste exato momento, estreitando-o nos meus braços.

Enquanto esse dia não chega, as fotos e os vídeos que recebo do bebê me confortam, e os livros me auxiliam a esquecer, um pouco, o isolamento forçado.

Duas leituras imperdíveis

Aconteceu comigo há mais de vinte anos numa das primeiras viagens que fiz aos EUA. Entrei numa cafeteria da Starbucks e, enquanto não chegava a minha vez de ser atendida, comecei a ler a longa lista de cafés que eram oferecidos. Na mesma hora fiquei confusa. Naquela época eu conhecia apenas três opções: o café expresso, o coado e o café com leite. Quando me encontrei diante da atendente, perguntei educadamente se poderia me explicar qual a diferença entre dois produtos. Sua resposta foi tão agressiva que fiquei sem ação. Insegura, paguei por algo que não me lembro e nunca mais, na vida, pisei numa Starbucks.

Ao contar a um amigo brasileiro morador da cidade o que me acontecera, ele disse que nos EUA as relações sociais entre brancos e negros não eram das mais fáceis. Não fazia muito tempo os negros ainda precisavam lutar pela igualdade de direitos civis, e até 1967 era proibido (dava cadeia!) um casamento inter-racial. Portanto, não era de se estranhar, que pairasse no ar um clima de animosidade e desconfiança em relação aos não afro-americanos.

Esse episódio me veio à lembrança quando escutei o audiolivro Um casamento americano, de Tayari Jones, e pouco tempo depois li Compaixão: uma história de justiça e redenção de Bryan Stevenson.

Apesar de o primeiro ser um romance e o segundo um livro de não ficção, ambos abordam um tema bastante espinhoso: o encarceramento de negros nos EUA, na maioria das vezes com um viés preconceituoso e racista.

Um casamento americano retrata os desdobramentos na vida de um casal afro-americano recém-casado, depois que o marido é condenado injustamente a cinco anos de prisão. Quando finalmente consegue provar sua inocência, sua vida virou de ponta cabeça. O que fazer com os estilhaços que sobraram?

Se hipoteticamente pudesse existir alguma dúvida quanto à parcialidade da justiça americana, especificamente a praticada nos estados do sul, ela se desfaz após conhecer os relatos apresentados em Compaixão: uma história de justiça e redenção. Eles cortam o coração.

O livro foi escrito por Bryan Stevenson um advogado negro que se especializou em salvar a vida de quem foi condenado à prisão perpétua ou à morte sem ter recebido um julgamento justo.

A história central é de Walter McMillian, que sem provas foi jogado no corredor da morte antes de ser julgado e ali ficou por muitos anos. Mas há muitos outros casos revoltantes, como impor sentenças de prisão perpétua sem direito a condicional a jovens com menos de quatorze anos.

Ambas as leituras me impactaram bastante e me fizeram pensar no sistema judiciário brasileiro. Apesar das diferenças entre o nosso direito e o praticado nos EUA, o resultado final é muito parecido. Em ambos os países são os mais pobres e desamparados que amargam longas penas. Se por aqui a cor da pele não é fator determinante de condenação, a pobreza é. O estrato social do réu praticamente determina se ele terá um julgamento justo ou não, se poderá recorrer ou não.

Como bem colocou o autor de Compaixão: Algo está profundamente errado quando os ricos culpados são tratados melhor que os pobres inocentes.”

HEIMAT

Recentemente vi o filme Jojo Rabbit que, de maneira irreverente, retratou pelo olhar de um menino a ascensão do nazismo e os impactos dessa ideologia na vida de cidadãos comuns.

Apesar da abordagem caricatural, ele me fez refletir, pela milésima vez, como as pessoas se comportam em épocas de crise.

Recordei a minha infância e a lavagem cerebral que recebi durante o governo salazarista. Do alto dos meus onze anos, de tanto ouvir falar na grandeza da nação costumava dizer que preferia morrer a perder as colônias portuguesas. Por esse motivo não estranhei que um garoto se deixasse contaminar, e tivesse como amigo imaginário o próprio Hitler.

Entretanto não consegui apreciar a minissérie Hunters, onde, mais uma vez, os nazistas e suas ideias abomináveis entram em cena. Admito que me distraí em alguns momentos e até mesmo gostei do desfecho surpreendente. Mas incomodou-me a utilização leviana de relatos verídicos, sobre o grande sofrimento infligido aos judeus, para contar uma história caricata entre mocinhos e bandidos. Quando terminou fiquei com a impressão de ter assistido a mais uma desnecessária teoria de conspiração.

Por coincidência, na mesma época em que vi o filme e a minissérie, estava lendo um romance gráfico que me agradou bastante. Trata-se de Heimat – ponderações de uma alemã sobre sua terra e história. Nele, a escritora Nora Krug recuperou as lembranças dos familiares que viveram durante a Segunda Guerra Mundial. O livro é composto de recortes, documentos oficiais, fotos, cartas e colagens e revela como foi a vida durante esse período sombrio da história da Alemanha. Estão lá os medos, dores, inseguranças, omissões e pouquíssimas esperanças. Um passado vivido por toda uma nação do qual as novas gerações procuram se distanciar.

Os alemães têm palavras bem compridas para designar com precisão uma sensação ou um sentimento. É o caso da palavra que dá nome ao título do livro: Heimat.

Heimat é um lugar especial onde você se sente acolhido e seguro. É mais do que um lar, ele pode ser real ou imaginário, mas você o associa a uma sensação de pertencimento onde suas crenças e valores o deixam confortável e não é necessário explicar quem se é. Mas qual seria esse lugar para a autora quando não se conhecem as fundações que o apoiam?

O livro não procura fazer um acerto de contas. Apenas reconhece que se grandes erros foram cometidos também houve tímidos e vitais gestos de solidariedade.

Ao tirar do limbo a história da família e se reconciliar com ela, Nora Krug abraça o presente sem guardar esqueletos escondidos no armário.

Heimat é uma biografia nada convencional que merece ser desfrutada.

É preciso chegar mais perto

A primeira vez que ouvi falar em coleta de tampinhas plásticas foi na coluna Dois Cafés e a Conta do jornalista Mauro Ventura. A arrecadação era promovida por uma ONG que vacina e castra animais de rua. Encantei-me com o projeto e logo estava separando as tampinhas não só do meu lixo caseiro, como pedi ao porteiro que fizesse o mesmo com as dos outros moradores do prédio. Nas minhas caminhadas pela praia passei a levar uma sacola para recolher todas as que encontrava jogadas na areia.

Em conversas com amigos soube que as tampinhas também ajudavam a ABBR a comprar cadeiras de rodas para os pacientes mais necessitados. Entre apoiar animais ou seres humanos preferi os últimos.

Lamentei quando a coluna do Mauro deixou de ser publicada no jornal carioca. Ela dava visibilidade a diversos projetos socioambientais desconhecidos pela maioria dos moradores do estado. No meio de tantas notícias deprimentes era bom saber que havia pessoas que, em vez de reclamar e apontar os erros, arregaçavam as mangas e faziam algo pela comunidade onde viviam.

Tempos depois, participei de um evento mediado pelo Mauro. Tratava-se de um bato papo entre seu pai, Zuenir Ventura, e o escritor Luís Fernando Veríssimo. Como os dois são amigos de longa data imaginei que teriam muitas histórias para contar.

Mesmo sabendo da notória timidez do escritor gaúcho, não estava preparada para encontrar um entrevistado tão avesso em conversar. Um comportamento bem diferente dos Ventura, pai e filho, que eram uma simpatia.

Mauro puxava um assunto e o pai desenvolvia o tema. Mas toda a vez que tentavam incluir o Luís Fernando na conversa, este a encerrava com poucas palavras. Só não me levantei e fui embora em respeito ao mediador que se esforçava para que o evento não fosse um fiasco.

Apesar dos percalços o encontro teve um lado positivo. Ele me aproximou, de novo, dos textos de Mauro Ventura. Comecei a ler suas crônicas no Facebook e festejei quando soube que ele lançaria um novo livro até ao final do ano.

Ofereci vários exemplares de PorVentura no Natal, sendo que para uma amiga em especial o fiz com segundas intenções. Eu sabia que quando terminava de ler um livro C. passava-o adiante. Não é como eu que custo a desapegar e vivo reclamando da falta de espaço nas estantes.

Pois bem, finalmente PorVentura chegou às minhas mãos e correspondeu às minhas expectativas. As crônicas são divertidas, contundentes quando necessário, e possuem algo muito raro nos dias atuais: um olhar sensível e interessado por pessoas e situações que normalmente costumam passar desapercebidas. Mauro Ventura fez-me rir, sacudiu-me e, principalmente, incentivou-me a chegar mais perto. Porque não dá para compreender a maioria das coisas à distância. É preciso se aproximar.”*

*citação retirada do livro “Compaixão” de Bryan Stevenson

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