Almas gêmeas

A professora do curso de Escrita Criativa recomendou a leitura de O zen e a arte da escrita, do escritor norte-americano Ray Bradbury.

Já tinha ouvido falar no autor porque vi o filme Fahrenheit 451, uma adaptação de um livro seu para o cinema, mas nunca tinha lido nada dele. Achava que Bradbury escrevia apenas ficção científica, um gênero literário que nunca me interessou. Mas com a leitura de “zen” descobri que também escrevera histórias de suspense.

Antes de todas as escolas fecharem por causa da pandemia, eu fazia um trabalho voluntário de leitura para alunos do 5º ano. O que eles mais me pediam eram histórias que dessem medo. Procurei saber se algum livro de Bradbury havia sido publicado no Brasil e assim cheguei até A árvore do Halloween.

A história se passa, como é óbvio, no dia das bruxas quando um grupo formado por oito amigos inicia uma busca para encontrar um outro amigo que desapareceu. Quando entram numa casa mal-assombrada, conhecem o sr. Montarlha (corruptela de mortalha). Ele se propõe a ajudá-los e, envolto em um redemoinho, conjura “uma pipa de destruição, (feita) de animais tão medonhos e ferozes que seus ruídos inundavam o vento e desfiguravam o coração.

O problema é que a pipa precisava de uma rabiola que a fizesse voar bem alto e com equilíbrio. Então, uma das crianças se agarrou na estrutura da pipa, uma outra se segurou no braço esticado, uma terceira se prendeu no pé da segunda criança, e assim sucessivamente, até todas elas formarem uma corrente humana voadora.

Não me pergunte como isso aconteceu, mas quando dei por mim estava assistindo a um vídeo, com mais de seiscentas mil visualizações, para aprender a fazer uma rabiola de 10 metros. O instrutor, com aquele sotaque característico do interior de SP que enrola o R, ensinava a cortar vários sacos plásticos em tirinhas finas, para depois amarrá-las na cauda.

Fiquei boba com a minha falta de foco. Mas o melhor ainda estava por vir quando li alguns comentários:

Eu não acredito que estou aqui no Youtube vendo um tutorial de como fazer rabiola, nem pipa eu sei soltar mano, kkkk.

O que a quarentena não faz com as pessoas, ein, kkkk

Não é que encontrei as minhas “almas gêmeas” de quarentena?

Histórias de migrações

Quando terminei de ler Terra Americana fiquei interessada em conhecer outras histórias de migrantes. Ao procurar por sugestões constatei que já tinha lido algumas.

Americanah, da escritora nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie e Aqui estão os sonhadores da escritora camaronense Imbolo Mbue.

O primeiro conta a história de uma jovem nigeriana, Ifemelu, que emigra para os Estados Unidos para cursar uma universidade. O romance acompanha a vida de Ifemelu nos dois países, e narra a sua história de amor com Obinze, colega de colégio.

O segundo livro relata as experiências de duas famílias na cidade de Nova York durante a crise financeira de 2008: uma família de imigrantes dos Camarões, a família Jonga, e a de seus empregadores ricos, a família Edwards.

Os dois livros receberam comentários no blog e podem ser acessados clicando em cima do título.

Li também O retorno da escritora Dulce Maria Cardoso. Apesar de não se tratar de uma migração propriamente dita – quem deseja entrar no país não são estrangeiros, mas nacionais nascidos num outro continente -, os recém-chegados são recebidos com desconfiança e hostilidade. São portugueses fugidos das ex-colonias e chegam aos milhares na metrópole. Recebem o nome de os retornados, mas poderiam também ser chamados de os indesejados. O livro é impactante, como tudo o que escreve a minha escritora portuguesa favorita.

Puxei pela memória e lembrei de O clube da Felicidade e da Sorte da escritora norte-americana Amy Tan, filha de imigrantes chineses.

É uma pena que o livro só possa ser encontrado em sebos, porque, tenho certeza, uma nova geração de leitores se encantaria com a história das quatro mulheres chinesas que emigraram para os EUA na década de 40. Elas refizeram suas vidas em São Francisco e para não esquecer as tradições da terra natal e poder repassá-las às filhas (para quem os únicos valores que importam são os do ‘american way of life’), se reúnem semanalmente em torno de uma mesa de mahjong. Está criado assim ”O clube da felicidade e da sorte”.

Na estante, encontrei um outro livro maravilhoso, Buda no Sótão da escritora Julie Otsuka. Ele conta os sonhos de mulheres que deixaram o Japão para se casar com desconhecidos nos EUA. A narrativa narra o choque inicial dessas mulheres ao chegarem a São Francisco na década de 1910, o nascimento e criação dos filhos, que não se interessam pela cultura de seus pais, e, por fim, a deportação de famílias inteiras para campos de exclusão. Este fato aconteceu depois que a base militar norte-americana Pearl Harbour foi bombardeada pelos japoneses, durante a Segunda Guerra Mundial.

O mundo atual não está nem um pouco acolhedor para aqueles que precisam recomeçar a vida em outro país. Será que se conhecêssemos suas histórias seríamos mais tolerantes? Será que a literatura tem o poder de construir pontes de empatia? Tomara que sim.

 

Terra Americana

A primeira vez que ouvi falar no livro Terra Americana, da escritora Jeanine Cummins, foi na revista O da apresentadora Oprah Winfrey. Além de fazer rasgados elogios, ela o incluiu no seu famoso clube de leitura. Fiquei bastante interessada e, em tempos de pandemia, pensei em comprá-lo no formato audiolivro apesar de ter dúvidas se entenderia um inglês mais coloquial e carregado de gírias. Felizmente, no mesmo dia precisei ir ao supermercado e, como já estava na rua, aproveitei para ver as novidades na Livraria Argumento que voltara a funcionar depois de ficar fechada por quatro meses. E lá estava ele, exposto na sessão dos lançamentos. Mais não preciso dizer.

Terra Americana começa de forma eletrizante: uma família inteira é chacinada durante uma comemoração de aniversário de quinze anos. Salvam-se apenas um menino de oito anos e sua mãe, Lydia. O mandante foi Javier, chefe do cartel de narcotráfico mais poderoso de Acapulco no México.

Até a tragédia acontecer, Javier e Lydia eram amigos. Eles se conheceram quando Javier se tornou um cliente assíduo da livraria que era de Lydia. Os dois tinham gostos literários muito parecidos, as conversas fluíram facilmente, e, pouco a pouco, estavam falando de suas vidas.

Mesmo depois de saber pelo marido, que era jornalista, a verdadeira identidade desse cliente gentil e educado, ela não conseguiu romper a amizade com Javier. Talvez por essa razão, não esperasse que ele reagisse de forma tão violenta quando saiu no jornal uma matéria, escrita pelo marido, dizendo quem realmente Javier era, e falando dos crimes que ele cometera.

Apavorada, Lydia precisou fugir com o filho e se tornou, de uma hora para outra, num daqueles casos que costumava acompanhar pelo noticiário com distanciamento e uma certa pena: o de homens, mulheres e crianças que, pelos mais variados motivos, tentavam entrar a todo custo nos EUA.

Inicialmente o livro foi recebido com muitos elogios tanto por outros escritores quanto pelo público. John Grisham chegou a dizer: “Escrevo porque gosto de ler e há muito que uma leitura não me provocava tanta emoção. O enredo é inteligente e imprevisível. A mensagem é oportuna sem ser política. As personagens são violentas, bondosas, frágeis e heroicas. É um livro autêntico.”

Entretanto, logo surgiram vozes discordantes dizendo que a autora não tinha legitimidade para falar sobre migração ilegal porque, além de não ser mexicana, não vivenciara as situações descritas no livro. Jeanine defendeu-se afirmando que havia procurado dar visibilidade ao sofrimento dos migrantes clandestinos e que, durante cinco anos, pesquisara exaustivamente sobre o tema, chegando a visitar o México diversas vezes para poder narrar com maior veracidade as histórias daqueles que eram tratados como indesejáveis.

Vivemos tempos estranhos. Desde quando um escritor precisa se perguntar se pode ou não abordar um tema que lhe interesse? Quem diz o que um escritor pode ou não escrever? Um homem não se pode imaginar sendo mulher e vice-versa? Alguém que veio de uma classe social mais favorecida não pode se colocar no lugar de um desvalido? Uma pessoa que enxerga não pode criar um personagem deficiente visual? Quem não matou ninguém não pode escrever sobre assassinatos? Outros olhares e visões de mundo não são mais permitidos? Onde fica o contraditório, a imaginação e principalmente a empatia? Um bom escritor oferece ao leitor a chance de conhecer outras vidas, de “calçar os sapatos do outro”. Qualquer movimento que impeça um escritor de falar através de seus personagens tem, para mim, um nome: censura.

No meio da algazarra surgiu uma voz respeitada no mundo literário para defender o livro: o da escritora Sandra Cisneros, de origem mexicana. Inicialmente ela disse que “Terra Americana não é apenas o grande romance americano, é também o grande romance de Las Americas, o grande romance do mundo! A história internacional dos nossos tempos”. Como a polêmica continuasse, insistiu: “Terra Americana tem o potencial de educar um público que não foi previamente exposto às histórias dos migrantes, que desconhece os problemas que acontecem nas fronteiras. Alguém comprará o livro pensando apenas em se divertir, e a história entrará como um cavalo de Troia, trazendo reflexões e conhecimento. Terra Americana vai mudar as mentes (dos americanos), de um jeito que eu não consegui fazer com as minhas histórias”

Se essa não é a função primordial de um livro, não sei mais o que dizer.

Cuidados de um pai

 

Acompanho pelo Instagram o escritor Ilan Brenman, considerado um dos mais importantes autores da atual literatura infantil brasileira. Recentemente ele postou um texto que escreveu para as filhas. Achei-o tão bonito que decidi reproduzi-lo aqui. Espero que Ilan não se importe, porque conselhos amorosos são sempre muito bem vindos e merecem ser compartilhados.

Para as minhas flores (texto escrito quando minhas filhas eram pequenas)

Andar descalço é uma delícia.

Quando puderem, por favor, coloquem meias.

Não deixem de olhar o mundo através do coração, mesmo que algumas vezes ele fique despedaçado.

Quando puderem sempre procurem o mar e o campo, lá o coração pode ser colado.

Desconfiem daqueles que não acreditam no ser humano, mesmo que às vezes vocês mesmas duvidem.

Quando puderem sempre procurem museus, teatros, livrarias, espetáculos de dança, lá a desconfiança evaporará.

A comida não é inimiga de vocês. Se cuidar é importante, mas sem exageros.

Quando puderem, experimentem comidas novas, se deliciem com doces maravilhosos, comam acompanhadas de pessoas queridas. O melhor restaurante do mundo é aquele em que estamos rodeados de amigos.

Por mais que os outros falem o contrário, posso garantir: vocês são lindas por fora e por dentro.

Quando puderem, e espero que possam, ajudem aqueles que precisam de ajuda.

Os meninos ficarão encantados com vocês, mas não esqueçam que as meninas é que mandam.

Quando puderem, e espero que não muito, finjam que os meninos é que mandam. Eles adoram essa ilusão.

O conhecimento é uma das ferramentas mais importantes da vida de vocês. Nunca deixem de estudar.

Quando puderem, relaxem dos estudos, um pouco de alienação não faz mal a ninguém.

Olhem para seus pais e pensem que um dia vocês também o serão.

Quando puderem, liguem. Para nós, vocês sempre serão nossas pequenas princesas.

Amizades vão e vem, irmandade é para sempre. Cultivem a amizade entre vocês.

Quando puderem, reservem um tempo só para vocês conversarem e conviver. Não deixem outras pessoas interferir no amor de vocês.

Nada é melhor do que uma boa noite de sono.

Quando puderem e se valer a pena, passem a noite em claro. Divirtam-se…

Vocês buscarão a felicidade a milhares de quilômetros de distância, viajarão obsessivamente atrás dela e encherão baldes de lágrimas por não a encontrarem.

Quando puderem, olhem para o lado e para dentro, talvez a felicidade esteja mais perto do que longe. Mas a busca incessante que farão para encontrá-la não será um desperdício, será a própria vida.

Com amor,

Papai

@ilan.brenman

 

Não sei não, mas acho que este texto merece virar um livro.

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